quarta-feira, 20 de março de 2013

HOJE É DIA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS. VIVA!!!


"Pássaros de mesma plumagem se juntam em bando"

do livro A palavra do contador de 
histórias (Gislayne Avelar de Matos)

Se juntar em bando tem sido fundamental para mim. Dessa maneira, me fortaleço, me revigoro e aprendo cada vez mais este ofício e arte cheio de maravilhas que é o universo da contação de histórias.

Contar histórias é passar a vida a limpo! E quanto mais eu conto, mais necessidade eu sinto de fazê-lo. Compartilhar histórias é vislumbrar sonhos pessoais e coletivos, é dar uma chance a mais para que as pessoas se reconheçam, se sintam partes de um mesmo todo e possam perceber o poder que está nisso.

Contar e ouvir histórias é dar e receber amor e dor e também todo tipo de sentimento que nos liga à humanidade, é estar próximo do essencial da vida.

Sou feliz e realizada por estar neste caminho: caminho que me pertence, caminho ao qual eu pertenço.

Sou grata por todas pessoas me (re) colocam neste lugar, seja através de um olhar de cumplicidade, de um gesto emocionado, de uma lágrima ou um sorriso, de uma palavra, de um abraço...

Desejo estar sempre com olhos, coração e ouvidos abertos para acolher pessoas com suas histórias que, na verdade, são minhas histórias nelas, são nossas histórias em todos.


Rosita Flores

quinta-feira, 14 de março de 2013

Para o Dia Nacional da Poesia: Um bom poema


"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão

de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!"
Mário Quintana
Imagem 1. Poeta Mário Quintana 


No mês de março, três datas comemorativas se entrelaçam de maneira harmônica: Dia Internacional da Mulher (08/03), Dia Nacional da Poesia (14/03) e o Dia Mundial da Poesia (21/03)

Imagem 2. Poeta Paulo Leminski
Passei um pedaço da tarde de hoje lendo poesias, escolhendo alguma para colocar aqui no Dedo de Prosa. Fiquei na dúvida entre algumas e, por um momento, pensei em colocar várias. Entretanto, fiquei entretida com projetos e histórias até que eu fui salva! Minha querida amiga, ávida leitura, amante de poesia e talentosa escritora, Giovanna Artigiani, me enviou uma poesia do Leminski que coube muito bem para o dia de hoje porque fala sobre o fazer poema, ou seja, é um metapoema ou metapoesia e intitula-se: Um bom poema.

E por coincidência ou não, eu acredito que não, eu encontrei um poema de Mário Quintana de mesmo nome , o qual abre essa postagem. Os dois poetas são do sul, sendo que Mário nasceu no Rio Grande do Sul e Leminsk no Paraná. Com todas essas sincronicidades, eu acredito que a escolha para o Dia Nacional da Poesia aqui no Dedo de Prosa foi certeira. Espero que apreciem.




Um bom poema leva anos
Cinco jogando bola
Mais cinco estudando sânscrito
Seis carregando pedra,
Nove namorando a vizinha,
Sete levando porrada,
Quatro andando sozinho,
Três mudando de cidade,
Dez trocando de assunto,
Uma eternidade, eu e você
Caminhando junto.

Paulo Leminski


Você tem algum poema ou poesia para enviar ao Dedo de Prosa? Que tal escrever alguma poesia para publicar por aqui? 

Deixo aqui o convite,

Abraços com desejos de uma noite cheia de poesia

Rosita

terça-feira, 12 de março de 2013

O HOMEM DO SACO

Estava dando uma olhada nas postagens da rede social, quando me deparei com esse texto na página do meu amigo Valter Cassalho (folclorista e historiador) que explica a suposta origem do Homem do Saco.

Confiram, é assustador! Se você souber de mais alguma coisa relacionada ao tema, envie para o blog!

Abraços,
Rosita

Imagem copiada da página da rede social - Facebook do perfil de Imagens Históricas
https://www.facebook.com/HistoricasImagens


O Homem do Saco

Entre 1400 e 1440, externamente Gilles de Laval, senhor de Rais, nunca dera sinal algum de sua natureza monstruosa e assassina, que um dia assombraria toda a Europa. Era conhecido como um nobre de natureza piedosa e religiosa e por ser caridoso com os pobres.

Após anos gastando sua fortuna, de Rais se viu quase sem recursos, quando resolveu consultar uma mulher que se intitulava feiticeira. Para recuperar os bens perdidos, a mulher aconselhou Gilles a sacrificar crianças para um demônio chamado Barron.

Em 1440, então, os sintomas de depravação de Laval começaram a ficar sob suspeita, visto que crianças iam até seu castelo de Tiffauges, próximo a Nantes, para pedir esmola e jamais voltavam para casa. Outras histórias macabras de orgias sexuais, torturas, sodomia, ocultismo e magia negra no castelo Tiffauges começaram a ser espalhadas pela Europa.

Devido a essas e outras histórias, o Bispo de Nantes, Jean de Malestroit, decidiu investigar as ações de Gilles de Rais, acabando por descobrir fatos horripilantes e, em setembro de 1440, de Laval foi preso e ameaçado de tortura. Em seu julgamento, Gilles confessou suas atrocidades, entre as quais estavam a prática do satanismo, heresia, sodomia, abjuração, sacrilégio, sequestro e tortura e, por fim, assassinato e mutilação de mais de 100 crianças. Certas partes de sua confissão se mostraram tão macabras, que foram removidas dos registros do processo.

Em outubro de 1440, Gilles de Laval foi enforcado e seu corpo queimado. Seus crimes foram tão chocantes que ele acabou se tornando, à época, símbolo universal do mal e logo viraria lenda, sendo invocado como "o homem do saco" para assustar crianças desobedientes que queriam ficar nas ruas. Outras histórias também foram baseadas em seus crimes, por exemplo o Barba Azul de Charles Perrault em "Histórias ou Contos de Tempos Passados" (1697). O Barba Azul era um rico nobre que matou sete de suas esposas, pendurando seus corpos pelas paredes de um cômodo do castelo.

Até hoje Gilles de Laval, o senhor de Rais, é destaque entre os assassinos em série mais macabros e horripilantes, segundo historiadores.

Texto de Talita Lopes Cavalcante
Administração Imagens Históricas

Ilustração de Jean Antoine Valentin Foulquier, "Gilles de Laval Lord of Rais performs sorcery on his victims", First Gallery, 1862.

Fonte: LEWIS, Brenda Ralph. A História Secreta dos Reis e Rainhas da Europa. Editora Europa: 2008. p. 22-23.

Mais sobre Gilles de Laval, o Senhor de Rais (em Francês): http://museepaysderetz.free.fr/gilles-retz-1.html

sexta-feira, 8 de março de 2013

São os Cabelos das Mulheres

Para o dia de hoje, quero compartilhar um lindo texto que reverencia a beleza, a força, a leveza, a sutileza, a audácia e a astúcia das mulheres. Para sempre nos lembrarmos  do que somos capazes! 


São os cabelos das mulheres 
autoria da talentosíssima escritora Marina Colasanti

Naquela aldeia de montanhas perdida entre neblinas, a chuva havia começado há mais tempo do que era possível lembrar. Só a água vinha do céu, em fios tão cerrados que as nuvens pareciam cerzidas ao chão. As plantações haviam-se transformado em charcos, as roupas já não secavam junto aos fogos fumacentos, e pouco ou nada restava para comer.

Reuniram-se os velhos sábios em busca de uma resposta, e longamente deliberaram estudando as antigas tradições.
- São os cabelos das mulheres - disseram por fim. E obedecendo aos pegaminhos, ordenaram que fossem cortados.
Na praça da aldeia, desfeitas tranças e coques, soltos todos os grampos, os longos fios que chegavam à cintura foram decepados rente à raiz, e entregues á chuva. Todos os viram descer na correnteza, ondulantes e negros. Todos se encheram de esperança, enquanto as mulheres abaixavam a cabeça deixando a água escorrer em filetes sobre a pele nua.
De fato, pouco demorou para que as nuvens levassem sua carga em direção ao vale, desfazendo-se ao longe. e o sol acendeu-se num céu tão enxuto e limpo que parecia novo.
Aquecia-se ao sol a antiga umidade guardada entre pedras e grotas. Vindas daquele calor, talvez, daqueles vapores abafados no escuro silêncio, longas serpentes negras começaram a deslizar para a luz.
Os homens só se deram conta da temível presença quando os campos abaixo da aldeia já estavam invadidos. Com asco e horror as encontravam de repente enroscadas no cabo de uma enxada, no fundo de um cesto, ou brilhando entre os sulcos. Eram tantas. De nada adiantava caçá-las; cortadas ao meio ou degoladas por facão ou foice multiplicavam-se, cada parte adquirindo vida própria e afastando-se como se recém-saída do ovo.
Quase não lhes bastassem os campos, começaram a deslizar em direção a aldeia. Em breve bastou afastar um móvel, abrir um armário, para encontrar uma serpente enovelada. Qualquer cobertor, qualquer travesseiro, qualquer manta ou almofada podia ser seu ninho. E entre as achas de lenha, entre as talhas de azeite, entre os gravetos e as cinzas do fogão, entre os grãos nas despensas, por toda parte e em todo canto cobras ondulavam suas espirais.
_ São os cabelos das mulheres! - exclamaram afinal os aldeões, sem necessidade de reunir os sábios.
E as mulheres riram, escondendo o rosto nos lenços e nos xales com que cobriam suas cabeças.
_Acabem com isso! - ordenaram-lhes os sábios. E não se referiam ao riso, mas às serpentes. E com voz que não admitia réplica, repetiram _ Acabem com isso, mulheres!
Mas como acabar com o flagelo se lhes faltava o remédio? _ responderam as mulheres. E acrescentaram - Cabelos. Para acabar com esses precisamos dos nossos.
E cabelos elas não tinham. Parecia inútil procurar. Por baixo dos lenços apenas uma leve penugem despontava. nenhuma mulher havia sido poupada. Ainda assim procuraram de casa em casa, mesmo nas mais distantes, até que, escondida entre as saias das irmãs mais velhas no fundo de um casebre, encontraram uma menina. Uma menina pequena, tão pequena que ao tmepo das chuvas havia sido confundida com um menino. Uma menina pequena, com um rabichinho magro.
Desatado o cordão que prendia o rabicho, os cabelos desceram cobrindo as orelhas. A mãe colheu um fio, enfiou-o numa agulha. Todos olhavam. Todos viram a mãe levantar uma pedra, suspender a serpente que ali se abrigava e, com os pontos firmes, coser-lhe a boca. Todos viram a serpente afastar-se deslizando ladeira abaixo.
O rabicho da menina já era apenas um fio quando a última ondulação negra desceu a encosta e a grama fechou-se sobre o seu rastro.
E passado algum tempo, a serenidade havia voltado à aldeia. Sem que, porém, viesse com ela a alegria. O frio demorava-se, sem abrir caminho à primavera. as mulheres caminhavam no vento com a cabeça coberta, todas elas envoltas em panos. As brotações tardavam, as sementes não germinavam na terra gelada, nem chegavam as aves migrantes.
ainda fazia frio na manhã em que a primeira mulher tirou o xale. Sacudiu a cabeça. Os cabelos, que haviam crescido, rodearam-lhe o rosto. E orque aquela havia tirado o xale, uma e logo outra a imitaram, uma quarta desfez sobre a testo o nó que prendia o lenço, cabeças de mulheres assomaram às janelas descobertas. Os cabelos, lisos, crespos, ondulados, dançaram livres farfalhando como folhas, cintilaram ao sol que de repente não parecia tão pálido. Em algum ponto daquela manhã, a primavera pôs-se a caminho.
_ São os cabelos das mulheres - disseram os homens farejando o ar que se fazia mais fino. E sorriram.



São os cabelos das mulheres, págs. 35-38 do livro Histórias de um viajante, Marina Colsanti. São Paulo, 2005 Ed. Global

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O advento de Astrolábio e Claraboia

Queridos amigos que acompanham o Dedo de Prosa,

Hoje eu quero apresentar para vocês uma querida amiga minha que é muito talentosa com as palavras. Eu tenho o privilégio de ler, desde à época da faculdade, alguns de seus escritos. Quando nos formamos, a Giovana (é o nome desta minha amiga) se mudou para Florianópolis onde mora até hoje - já faz um bom tempo isso. A Giovana continuou derramando seus sentimentos, ideias e imaginação na ponta de uma caneta e foi ficando tão boa nisso que, atualmente, participa com sucesso de concursos literários. PARABÉNS, GI!

Quando a Gi veio aqui em casa visitar o Joaquim, eu recebi de presente o conto O advento de Astrolábio e Claraboia. Durante a leitura a emoção ficou à flor da pele. Sentimentos diversos afloraram. Lágrimas quiseram se esconder. A leitura foi deleite do começo ao fim.

Desejo que vocês tenham uma ótima leitura e assim como eu, também se deleitem.


Aproveito, a partir deste, para anunciar que o blog está aberto para receber outros contos, textos, ensaios para publicação.

Venha dar um Dedo de Prosa com a gente!

Grande Abraço e ótima leitura.


Conto selecionado no Concurso da Associação Nacional de Escritores
Para participação em antologia comemorativa dos 50 anos da ANE- Brasília (2012)

 “O advento de Astrolábio e Claraboia”

Giovanna Artigiani

            Ele tinha fama de esquisito. Sempre foi assim e já fazia muito tempo que o rótulo tinha deixado de incomodá-lo e tinha passado a lhe ser indiferente. Ele já tinha sido ponto de referência “tem um lugar vago ali ao lado daquele cara estranho”; ele já tinha sido tomado como exemplo de trivialidade “mas se até ele faz, você também vai conseguir”; ele já tinha tomado carão de policiais “vê se te ajeita melhor cara, você foi o primeiro que eu suspeitei”.
            Jonas era dono de um pensamento rápido e de um gosto duvidoso. Gostava mais de ouvir do que de falar. Preferia ficar só com as suas manias, sabia de antemão que suas escolhas não interessavam a ninguém. Só quem não o achava um caso perdido era a mãe, que pouco o via, mas o presenteava insistentemente com camisas pólo.
            Os dias, compridos, eram ocupados com pintura, música e solidão. Dedicava-se a pintar quadros minuciosos, abstratos, densos. Ele pintava seu turbulento universo interno. Havendo um dia de sol ele saía de sua toca e expunha as pinturas na rua, em frente a um parque e nem sempre gostava de ouvir os comentários dos observadores. Para evitar questionamentos colocava um pequeno papel abaixo de cada quadro com uma palavra nomeando o quadro como “mágoa”, “saudade”, “raiva”, “admiração”, coisas assim. No mesmo papel, em menor tamanho, o preço, que na verdade não queria dizer nada. Se outro valor fosse oferecido, ele daria de ombros e aceitaria. Alguns olhos maduros se demoravam na observação dos quadros, alguns olhos infantis se demoravam na observação de sua pessoa, alguns olhos o repreendiam na sua suposta vadiagem, muitos olhos sensatos o ignoravam. Respondia às crianças, apontando, que tinha vindo do céu, respondia aos beneméritos com um gesto de não.
            O pintor vivia em um velho porão, alugado por uma senhora de muitos anos que morava na casa de cima sozinha. O pequeno quintal era só dele e tinha aparência de pouco cuidado. O valor do aluguel não era reajustado há anos. Jonas e a senhora não se falavam há meses. Frequentemente, estando em sua casa por dias, ele se esquecia do mundo. Não obedecia às convenções das horas.
 Estando nas proximidades do parque dividia o espaço com outros vendedores alternativos. Para quem tem tempo e vontade de observar era fácil perceber que as pessoas se repetiam por ali. Havia certa previsibilidade no desfile urbano: muito cedo era o vento acordando tudo, depois vinham os apressados maiores e menores, na sequência viam os recém-aposentados, os esportistas obstinados, as mães e as crianças bem pequenas, os aposentados experientes, os cães cheiradores que ficavam ali, as crianças que voltam da escola, os apressados sem pressa completando a hora do almoço, as crianças um pouco maiores com suas mães, os jovens namoradores, os apressados de novo e os esportistas cansados. Vinha o vento de novo gelando tudo. Eventualmente vinham os exaustos limpadores das ruas e os policiais sisudos.
            O convívio era pacato entre os vendedores. Havia alguma conversa entre a maior parte deles, alguma camaradagem em cuidar dos produtos para pequenas ausências do outro, alguma partilha de alimento, nenhuma curiosidade sobre a vida alheia. Dividiam o espaço, o tempo e os cães. Sempre se juntam cães a esses movimentos.
            Como já foi dito, havia certa previsibilidade na presença dos cães. E a personalidade de um e outro, era demonstrada em diferentes situações. Para os cães a vida é uma constante busca do cheiro, da comida, do abrigo e da reprodução. Os humanos às vezes ajudam nas buscas caninas. O fato é que aqueles humanos e cães acostumaram-se a estar naquele palco como personagens principais, atravessados pelos passantes coadjuvantes.
            Jonas tinha por princípio não interferir no mundo, deixava que as coisas se resolvessem sozinhas e que os fatos tomassem rumo sem a sua participação. Não queria ser justo ou injusto, não queria ser causa ou consequência, não queria participar de nada, envolver-se ou comprometer-se. Suas pinturas eram uma fala à qual não cabia interlocução, como frases feitas. Mas o seu rápido pensamento, em desacordo com seus princípios e em franca desobediência ao seu volátil voto de silêncio, emitia incessantes julgamentos e observações, que reverberam e produziam novas pinturas, quase sempre.
            Um fato.
Certa vez, vinha descendo a rua um carro visivelmente desgovernado e em nítida rota de colisão com o alambrado do parque, bem no ponto em que dormia tranquilo, aproveitando os raios do sol, Astrolábio, o cão faminto. Contrário à sua índole Jonas gritou:
- Astrolábio!
            E o cão, como se soubesse que aquele nome era seu, alertou-se e correu junto à trupe, fugindo do perigo e juntando-se aos demais, taquicárdicos, a poucos metros do carro amassado.
            Recuperado do susto triplo – o carro desgovernado, a morte eminente do cão e a fala do companheiro até então tido como mudo – comentou, jocoso e ritmado, um vendedor da área:
- Mas é mesmo coisa que a gente se espanta. O cara nunca falou nada, e quando fala, não fala assim pão e pedra, diz logo o quê? Astrolábio!
O humano não nomeou para poder comunicar, mas para transmitir um pertencer afetuoso. Mesmo sem querer, aquele mundo era seu mundo, aquele cão era um pouco seu. Mesmo sem querer interferir, ele se importava.
Certamente os cães, se pudessem conversar entre si dariam nomes aos humanos como “o cheiro azedo” ou o “cheiro de capim”. Assim, de mesma forma, os humanos presentes na frente do parque costumavam denominar os cães como “a branquinha”, “o faminto” e outros. Eram nomes operacionais, de um lado e de outro. Não se ocupavam nesta parte do universo, com o uso de abstrações para fins práticos, apenas para fins inespecíficos.
            Naquele mesmo dia ele pintaria o quadro “proteção”.
            Certa vez uma mulher muito jovem descreveu assim os quadros de Jonas para um cego:
- São cores, cores que se movimentam mostrando um sentimento, elas se misturam em alguns pontos e em outros estão mais puras.
Batismo feito, batismo aceito. O cão passou a ser chamado de Astrolábio por todos e passou a se comportar como se pertencesse um pouco mais a Jonas. Passou a acompanhá-lo até em casa e nas noites de chuva, Jonas percebeu que ele dormia sob o tanque de lavar roupas. Sem maiores exigências ele passou a cuidar do portão sempre aberto. Economizava latidos como Jonas economizava palavras. Jonas pintou “silêncio” e “amizade”.
O pintor passou a dar ao cão restos de comida e recebia pequenas lambidas agradecidas. Jonas pintou “afago”.
Um dia, bem cedo, Astrolábio latiu para chamar o Jonas. Ele tinha a companhia de uma pequena cadelinha branco-suja de rabo retorcido. Claraboia podia ser seu nome. Esse é o curso natural da história, mesmo que ninguém interferisse no rumo das coisas.
Jonas desejou secretamente, pela primeira vez em sua vida, pintar “amor” nas costas nuas de uma mulher. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

LEITURA ALIMENTA.COM.BR


LIVRO NA CESTA BÁSICA?

É isso mesmo! A iniciativa é parceria entre a Livraria da Vila e a Cesta Nobre


Uma iniciativa revolucionária como esta tem que ser aplaudida e divulgada. 
Quem de nós não tem um livro esquecido na estante, numa gaveta qualquer, às vezes, nunca lido? Então é hora de passá-lo adiante doando para o projeto Leitura Alimenta. Cada livro recebido será incluído em uma cesta básica e doado às famílias de baixa renda.




SAIBA MAIS SOBRE ESTE PROJETO E COMO PARTICIPAR ATRAVÉS DO SITE http://www.leituraalimenta.com.br/index.html



domingo, 3 de fevereiro de 2013

"Que livros eu acho essas histórias?"





"Acordar não é de dentro. Acordar é ter saída"
João Cabral de Melo Neto


Imagem1. Foto em frente ao teatro do CEU Parque Veredas

Assim que terminou nossa última apresentação no programa Recreio nas Ferias, ele se aproximou me chamando. Sob par de óculos de grau estava aquele rosto de expressão interessada e alegre, a me perguntar: "- Que livros eu acho essas histórias?"
Imagem 2. Foto cenário Histórias de Arrepiar

Isso aconteceu no teatro do CEU Quinta do Sol no dia 23/01, por volta das 15:20 minutos. Quero abrir um parênteses, para falar um pouco da história deste CEU. Assim que chegamos ao Quinta do Sol, o André veio nos receber e foi muito atencioso. Enquanto eu estava toda afobada tentando arrumar tudo o mais rápido possível para amamentar o Joaquim, ele disse que queria nos falar um pouco sobre como surgiu o Quinta (já me sinto íntima do lugar). E então eu pausei o que estava fazendo, meio á contragosto, não vou mentir. André começou dizendo que todos que trabalham lá têm muito carinho pelo espaço e, completou enfaticamente, que a população também tem um grande zelo pelo lugar que foi reivindicado e conquistado por ela. Antes de ter um equipamento cultural ali era um terreno vazio e as pessoas tinham receio de passar em frente porque começou a ser utilizado por pessoas que usavam drogas. As crianças são frequentadoras assíduas de lá e já têm o hábito de ir à biblioteca e ao teatro. A população, inclusive é guardiã do Quinta do Sol e fica atenta até aos horários de abertura e fechamento.
E quanto á pergunta do menino do começo deste relato? Bom, eu respondi meio às pressas a ele, porque os monitores já apressavam todas as crianças para a próxima atividade. Mas, a minha vontade era de ficar ali, conversando com aquele menino. Queria saber tanta coisa sobre ele! Entretanto, por mais que nosso diálogo tenha sido de poucas frases e, mesmo interrompido pela urgência de um outro acontecimento, para mim foi como se todas as apresentações tivessem valido apenas e porque aquele menino me chamou e perguntou: "-Que livros eu acho essas histórias?"
Ainda o acompanhei com o olhar enquanto ele saia do teatro com a expressão satisfeita e olhos sorridentes. E eu fui para casa sentindo a alma lavada e leve no corpo cansado e FELIZ.

Ah!! O Recreio Nas Férias de janeiro teve também presenças especialíssimas: o meu filhote Joaquim e minha mãe Ineida. A presença da minha mãe foi fundamental para os cuidados com o Joaquim.
Imagem 3. Papai Giba tocando calimba e Joaquim

Foram duas semanas de apresentações inesquecíveis.



Um grande abraço, e até breve!

Rosita