quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Curso Livre - Contador de Histórias SENAC


Boas tardes, minha gente!

 Faz um tempo que não escrevo aqui. Como vocês sabem, estou com um bebê ( o Joaquim completou, no dia 18/11, um aninho) e também estou trabalhando muito espalhando histórias por aí.

Em breve, muito breve, vou me reorganizar para postar coisas novas por aqui - cantigas, brincadeiras, histórias e também atualizá-los sobre as andanças da Cia Duo Encantado e das minhas caminhadas solo.

Hoje, venho convidá-los a participar e/ou ajudar na divulgação de um curso que vou ministrar em dezembro no SENAC Aclimação. Trata-se de uma formação para contadores de histórias. Serão encontros diários, durante uma semana, no período noturno. Posso dizer, de antemão, que vão ser momentos de muita troca de conhecimentos e reflexões, brincadeiras e cantigas em roda. Isso eu já sei, porque estou com um grupo em andamento, com encontros aos sábados. Como foi tudo muito em cima da hora, não tive tempo de divulgar por aqui. Em breve, colocarei fotos e comentários sobre este processo.

Agradeço muito se puderem ajudar na divulgação. 


Um grande abraço,

Rosita Flores


domingo, 18 de agosto de 2013

OS MÚSICOS DE BREMEN



Comecei a contar esta história faz pouco mais de um mês e a cada vez que conto, ela se torna mais divertida!

A primeira vez que contei foi na Biblioteca de São Paulo - sucesso total! As crianças se tornaram os personagens da história e na hora da cantoria o público todo soltou a voz.

Resolvi colocá-la no repertório de minhas apresentações de agosto no Projeto Encontros do Metrô de São Paulo, nas estações Paraíso e Corínthians-Itaquera e o resultado não foi diferente. Neste caso, os personagens foram todos adultos que, como as crianças, se divertiram bastante, relinchando, latindo, miando ou cantando.


A Cláudia Romano foi a gata da história em uma das apresentações e, para minha alegria, ela enviou um pequeno relato dessa sua experiência (estação Paraíso do metrô no dia 07/08, 13h).

"Olá Rosita, hoje você me fez ser uma gata bem manhosa e velha..rsrsr na hora do meu almoço, e olha que nem cheguei atrasada na minha aula cheguei na pinta da hora. foi maravilhoso o que vc fez linda história e forma de conta-lá. Obrigado pela felicidade que me deu sem eu pedir assim de graça. "Belezura" Cláudia Romano

Quer se divertir também? Junte-se com três ou quatro amigos e brinque com essa deliciosa história.

Os músicos de Bremen


Era uma vez, um fazendeiro que tinha um burro muito prestativo e fiel. Esse burro sempre serviu muito o fazendeiro. Levava em seu lombo todo o trigo colhido na lavoura até o moinho e saía do moinho com pesados sacos de farinha que levava até o mercado da cidade. O burro fez esse serviço todo durante muitos e muitos anos e muito bem. Só que os anos passados foram sendo sentidos em seus ossos e músculos e o burrinho, no momento desta passagem, não conseguia mais realizar todos esses trabalhos com a mesma agilidade de antes.

O fazendeiro, por causa disso, tinha planos de mandá-lo embora pra bem longe e pra sempre. O velho burro descobriu os planos do fazendeiro e ficou muito triste por ter a sua lealdade paga com tamanha ingratidão. Ele não queria ir embora, nem pra bem longe e nem pra sempre. Mas, não tinha a menor ideia de como sair desta situação. Na verdade, o burro acreditava que o fazendeiro queria era matá-lo.

Então, bem a noitinha, o burro deitou-se de barriga pra cima, no pasto verdinho e ficou olhando para o céu. Lá no alto a lua brilhava bonita e grandona. Era lua cheia. O burro fechou os olhos e falou com a lua:

- Preciso achar uma solução. Oh lua que está tão brilhante e grande no céu me ajude a achar uma saída. E assim que o burro abriu os olhos, já sabia exatamente o que fazer.

Iria fugir para Bremen e se tornar músico. Assim como ele pensou, assim ele fez. Saltou a cerca dos arredores do pasto com uma alegria e um vigor que há muito tinha perdido e se viu do outro lado, na estrada, completamente livre, leve e solto.Estava tão feliz o burro, que começou a cantar:

"Eu vou, eu vou, pra Bremen agora eu vou, lálálálá...eu vou, eu vou"

E foi mesmo seguindo na estrada em direção à Bremen. Ele andou, andou e bem lá adiante viu algo na beira da estrada. Chegou mais perto e viu que era um cachorro muito velho e muito triste e então ele perguntou:

- Por que está tão triste, velho cachorro?

E o cachorro respondeu que não conseguia mais vigiar o rebanho de seu dono como fazia quando era jovem e cheio de energia e, por isso, ele seria levado embora pra bem longe e pra sempre.

-O mesmo aconteceu comigo e decidi fugir pra Bremen e me tornar músico. Quer ir comigo? Perguntou o burro.

- Ah! Que maravilha, respondeu o cachorro. É claro que eu aceito.

E quem quer que passasse na estrada rumo à Bremen ouviria um velho burro seguido por um velho cachorro, cantando assim:

"Eu vou, eu vou, pra Bremen agora eu vou, lálálálá...eu vou, eu vou"

Os dois andaram, andaram e depois de muito andar avistaram alguma coisa bem perto de um matagal. Era uma velha gata, muito velha e muito triste. O burro quando chegou bem perto dela, perguntou:

- Por que está tão triste, velha gata?

Ah! Adivinhem o que ela lhe respondeu? Tinha sido abandonada pelo seu dono que não a queria mais só porque ela não conseguia mais caçar os ratos da casa. O dono dela queria levá-la embora pra bem longe e pra sempre. Exatamente como tinha acontecido com o nosso burro da história.

-O mesmo aconteceu conosco, porém decidimos fugir pra Bremen. Quer vir também?

A gata aceitou na hora e na estrada agora, havia um velho burro, seguido por um velho cachorro, seguido por uma velha gata e os três alegres, a cantar:

"Eu vou, eu vou, pra Bremen agora eu vou, lálálálá...eu vou, eu vou"

Os animais andaram, andaram e depois de muito andar avistaram alguma coisa ciscando lá adiante. Era um velho galo. Muito velho e muito triste.

- Por que está tão triste, velho galo? Foi logo perguntando o burro.

E a resposta foi a mesminha dos outros animais:

- Meu dono quer me mandar pra bem longe e pra sempre. Eu não consigo mais acordar cedinho e acordá-lo com meu canto. Estou muito velho e cansado.

O burro lhe disse que tanto ele, quanto o cachorro e também a gata, tinham sofrido de tamanha ingratidão porém, estavam decididos a mudar o destino de suas vidas fugindo para Bremen onde pretendiam se tornar músicos. O burro convidou o velho galo para acompanhá-los.

E a resposta, acho que você já pode adivinhar, não é?

O velho galo aceitou na hora, sem delongas. E os quatro animais seguiam felizes a cantar pela estrada que realizaria seu sonho de vida nova e boa:

"Eu vou, eu vou, pra Bremen agora eu vou, lálálálá...eu vou, eu vou"

E os quatro animais recém amigos andaram, andaram, andaram e foram ficando cansados e com  fome. Foi aí que decidiram encontrar algum bom lugar para descansar (comida era difícil de encontrar).

E então eles andaram e andaram mais um pouco e encontraram um lugar que parecia bom e até certo ponto aconchegante: um lindo e exuberante carvalho, muito alto e com uma copa bem bonita. Cada um dos bichos foi logo buscando um lugarzinho aprazível. O burro juntou umas folhas secas, as arrumou e logo se deitou. O cachorro se enrolou todo e encostou o corpo no tronco da árvore. A gata, manhosa e sabida, se encostou no cão. E o galo como vocês já podem imaginar, se empoleirou num tronco bem lá no alto.

A noite estava bem bonita.

Passado algum tempo, o cachorro já roncava e a gata ronronava, o galo cantou lá de cima e seus amigos acordaram.

- Vejo uma luzinha bem adiante. Parece uma casa ou algo assim. O que acham, meus amigos, de seguirmos até lá? Quem sabe encontramos alguma comida e água? disse o galo.

Os animais pensaram que poderia ser uma boa ideia e decidiram caminhar mais um pouco, em direção àquela luz.

Andaram e logo chegaram ao lugar. Era mesmo uma casinha de madeira e pequenina. Ouviram uns ruídos vindo de dentro e, por um pequeno buraco da madeira o burro olhou dentro. E o que ele viu foi de alegrar todo mundo. O burro notou que na sala havia uma mesa repleta de comida e bebida. Porém, viu também sete ladrões que sentados ao redor da mesa, para tristeza de todo mundo.

No mesmo instante, o burro olhou para o céu e a lua brilhava linda, redonda e grandona. Ele fechou os olhos e  mesmo em oração e pediu:

Oh lua, você que brilha tão grande no céu, me me ajude a achar uma saída. E assim que o burro abriu os olhos, já sabia exatamente o que fazer.

-Tenho um plano - ele disse.

O burro ficou de pé, com as patas dianteiras apoiadas no parapeito da janela e falou:

- Cachorro, suba nas minhas costas! Gata, suba nas costas do cachorro. Galo, suba nas costas da gata e, quando eu der um sinal, vamos todos começar a fazer música com muita força.

Feito isso, estavam todos prontos para entrar em ação. O burro deu o sinal e a música começou bem forte.

O velho burro urrava com toda a sua força, o velho cachorro latia bem alto, a velha gata miava muito e o velho galo cantava bem alto. Fizeram tamanho barulho que as vidraças tremeram até se estilhaçar em muitos pedaços. O galo voo para dentro da casa e começo a bicar os ladrões. Foi seguido pela gata que distribuiu unhadas. Depois veio o cachorro mordendo quem encontrasse, e por último o burro entrou aos trambolhões e começou uma sessão de coices. Era um salve-se quem puder. Dentro da casa a luz estava fraca e, na penumbra não dava para ver nada direito. Com aquele barulho todo provocado pelos animais, os ladrões se assustaram e acreditaram que um grande monstro estava querendo pegá-los. Os sete ladrões foram saindo, apavorados da casa, derrubando tudo que encontravam pela frente e fugiram pela floresta afora. Nunca mais voltaram.

O burro e seus amigos comeram e beberam até não mais poder. E quando terminaram estavam bem satisfeito e puseram-se a buscar um bom lugar para tirar uma soneca.

O burro se acomodou em cima de um monte de palha, a gata se enrolou perto da lareira, o cachorro ficou em um tapete perto da porta e o galo se empoleirou numa viga do teto.

No dia seguinte, eles acordaram descansados e alegres. Admiraram a vista linda que tinha o lugar e decidiram morar lá para sempre. Todos os dias pela manhã, bem cedinho, os quatro amigos caminhavam até Bremen que não ficava muito longe dali, não. Caminhavam alegres a cantar:

"Eu vou, eu vou, pra Bremen agora eu vou, lálálálá...eu vou, eu vou"

E assim fizeram por muito tempo. Estudaram muito e se tornaram músicos talentosos e famosos.

Ah! E antes que eu me esqueça de dizer, na cidade de Bremen, na Alemanha, o prefeito mandou fazer uma estátua bem bonita representando os quatro animais: um burro e em suas costas um cachorro, e nas costas deste uma gata e nas costas dela, um galo. Foi uma maneira de homenagear os quatro velhos animais que conseguiram fugir da morte e, caminhando pelo mundo afora, encontraram uma nova vida de alegria, amizade e muita música.

Recontado em versão livre por mim, Rosita Flores.

Versão conhecida pelos Contos dos Irmãos Grimm

Recomendo a versão encontrada no livro Contos de Animais do mundo todo, Naomi Adler. Com belíssimas ilustrações de Amanda Hall. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007.










quinta-feira, 23 de maio de 2013

Entre Contos, Brincadeiras e Peripécias do Boi Bumbá e outras histórias

Feira do Livro, Biblioteca de São Paulo e Virada Cultural na Casa das Rosas


"No fio das histórias, como no fio da vida, cada um tece o seu tapete..."
em A palavra do contador de histórias
Gislayne Avelar de Mato pág 17

A semana que passou foi bastante agitada para mim. Na segunda-feira contei histórias para os pequenos de idade entre dois e oito anos, do Colégio Maria Imaculada, na Feira de Livros. Desde a semana anterior eu estava entre os preparativos: escolhendo as histórias, os possíveis recursos e tudo o mais.



   Foto 1. Catirina buchuda - crédito da foto Casa das Rosas
A partir da terça-feira, o meu envolvimento total foi com as apresentações que seriam no final de semana da Virada Cultural. Aliás, toda a pesquisa de histórias, versões, recursos, elementos, cantigas, começou bem antes - mais de um mês de antecedência. Mas, a última semana foi essencial para desatar alguns nós que teimavam e também para fazer os ajustes que faltavam. Até ensaio na rua fizemos. Foi bom ver a reação das pessoas que observavam nas varandas, portões e janelas.

Na sexta-feira após o ensaio que terminou por volta das quatro da tarde (começamos às onze horas) fui levar o Boi para a Casa das Rosas para a apresentação de domingo.

No sábado fomos contar histórias na Biblioteca de São Paulo e foi muito especial! Contei as histórias de autores alemães. Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela, A grande questão e O pato, a morte e a tulipa. Foi bem gostosa a interação que surgiu. Os livros ora abriam espaços para comentários, olhares e indagações de fora. Ora serviam como preenchimentos para as interrogações e emoções de dentro.

Aos poucos o público foi se tornando uno. Dava para notar os olhares e expressões que contagiava os presentes. O livro com toda sua magia - ilustrações, beleza de formato, textura, etc -  foi o substrato para a germinação da teia simbólica onde as sensações, os sentimentos, as emoções e a oralidade se estabeleceram e foram sendo construídos com a e pela narrativa.

Cheguei em casa exausta. Porém, o trabalho ainda não tinha terminado. Aproveitei para tirar um cochilo breve e depois fui terminar de organizar tudo para o dia seguinte: apresentação de Entre Contos, Brincadeiras e Peripécias do Boi Bumbá na Casa das Rosas. Lá pelas tantas pude "pregar o olho" e descansar com alegria e expectativa.

                                                                                           Foto 2. As crianças ajudando  o Boi Pintadinho
                                                                                                                          Crédito da foto: Ana Lu Sanches

O domingo começou cedo. Banho e mama para o Joca. Banho e café da manhã e partimos para a Casa das Rosas. Antes, passei na casa de minha mãe que ficou com o pequeno durante todo o tempo. Santa Mãe, grata por tudo sempre.

Ajustes de som, microfones, figurino, exercícios vocais, passagens das músicas: Ufa! Começa logo - era o que eu pensava. E começou! Às 14:30h com uma platéia linda, dia com um sol suave na pele, jardim verde exuberante da Casa das Rosas, e nós chegamos com o boizinho.

A cantiga de chegança começava: " Chegô , chegô, chegô levantando poeira. As moça  baterô  palma quando viram a brincadeira. Inté panharam rosa oi, no gaio da roseira"

Pétalas de rosas dançavam no ar enquanto colhíamos sorrisos. O Boi que foi brincado e gingado pelo Hélio Francisco seguia encantando as crianças, enquanto a sanfona do Ítalo Magno e a zabumba do Giba Santana lançavam a sonoridade que envolveu a todos numa brincadeira e dança únicas.



                                Foto 3. Boi Pintadinho (Hélio Francisco): Giba Santana, Rosita Flores e Ítalo Magno
                                Crédito da foto: Ana Lu Sanches


AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: AO GRUPO BEIJA FULÔ DO QUAL TENHO A HONRA DE FAZER PARTE  POR TER GENTILMENTE CEDIDO O BOIZINHO ; À TODO PESSOAL DA CASA DAS ROSAS (PRODUÇÃO, ORGANIZAÇÃO, E EM ESPECIAL À CAMILA FELTRE E CAROL); AOS MEUS PAIS; AO MEU PEQUENO JOCA QUE É TÃO COMPREENSIVO NAS MINHAS AUSÊNCIAS; À ANA LU SANCHES PELOS CLICS INCRÍVEIS; AOS CHAPÉUS EMPRESTADOS DO GRUPO CORDÃO DA TERRA, AOS AMIGOS E TODOS OS PRESENTES QUE SE DIVERTIRAM COM A GENTE E FIZERAM A TARDE DE DOMINGO FICAR TÃO GOSTOSA. AO ÍTALO E HÉLIO POR TEREM PARTICIPADO DESTA HISTÓRIA COM O DUO ENCANTADO.


Abraços de alegria

Rosita Flores












O desenho daquele menino



"O importante não é a casa onde moramos. 
Mas onde em nós, a casa mora."
Avô Mariano (do livro Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra de Mia Couto, Ed. Cia das Letras)

No sábado contei histórias na Biblioteca de São Paulo e foi muito especial!

Eu me diverti com as crianças que estavam muito atentas e participativas. Senti muita receptividade e cumplicidade entre os presentes.
Ao final, no momento em que eu já estava guardando minhas coisas, veio um menino até mim e mostrou um desenho. Ele disse: "Olha o desenho que eu fiz, tia."



No desenho dele tinha um sol entre nuvens, um homem e uma mulher com mãos que quase se tocavam.

Eu elogiei o desenho e perguntei quem eram aquelas pessoas. O menino respondeu: "Meu pai e minha mãe."
Eu perguntei se os pais estavam com ele e então, o garoto disse que só o pai, a mãe não morava ali.

Ficamos conversando por um tempo e eu quis saber porque ele próprio não estava no desenho e a resposta foi, com olhos baixos e voz triste: "Ah! Eu esqueci...Tem também meu irmão que eu esqueci".

Ele tinha feito o desenho para dar de presente ao pai.
Perguntei se ele não queria se desenhar ali e o irmão também, e ele disse que o faria. Pegou o desenho decidido e se foi.

Eu também fui. Levei minhas coisas até o camarim, troquei de roupa, bebi água e quando já estava indo embora, senti um aperto no coração, uma vontade de voltar para ver o desenho daquele menino.Como se eu precisasse disso para sentir que não o havia abandonado (ou me abandonado?).

Entrei novamente na biblioteca e o procurei. Meus olhos o encontraram desenhando. Ele estava sentado numa pequena mesa junto com outras crianças que também desenhavam. Quando chamei por ele que me olhou com olhos brilhantes. Bem, assim foi que eu percebi ou talvez tenham sido os meus olhos que brilharam para ele - nele - com ele.

Ele já havia entregado o desenho ao pai. Pedi para ver e ele foi me guiando pelo corredor da biblioteca até onde se achava seu pai. O corredor era estreito e pequeno. No caminho ficamos lado a lado sem dizer palavra, só expectativa.
Chegamos.  O pai usava um computador da biblioteca e foi logo se desculpando, porque o filho é que tinha que usar.  Porém, o pai se acalmou quando percebeu que eu tinha ido até lá para ver o desenho do menino.

O pai puxou aquele papel sulfite e retirou-o debaixo de algo. Eu não prestei atenção no "algo". Eu queria ver o desenho. Agora eu tinha o desenho do menino nas mãos: um sol entre nuvens, um homem e uma mulher de mãos que quase se tocavam e dois meninos no canto direito. Os irmãos estavam num canto bem separados dos pais. Entretanto, muito próximos um do outro, naquele canto à direita do papel sulfite quase se fundiam num único menino.

Fiquei ali sem saber o que silenciar ou o que pronunciar. As palavras escorreram pelo chão, se esconderam nos livros daquela biblioteca, se trancaram em pensamentos. E porque eu não tinha mais palavra alguma, fiquei ali olhando o desenho, o pai estava em pé, mãos nos bolsos, querendo que aquela situação acabasse. Sorria amarelado e sem graça.

Eu me despedi do pai olhando para o desenho do menino, para o menino que eu via no desenho e para a lembrança que eu tinha do menino.

Naquela tarde eu contei histórias de Wolf Erlbruch, duas delas foram: A grande questão e O pato, a morte e a tulipa.

Contar histórias é entrar em contato com o íntimo das pessoas. Por isso é tão transformador e profundamente perturbador.


Rosita Flores

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Dica de Leitura - Metamorfose por Completude




A Ficção Científica como Encontro de Perspectivas


Criar mundos, estruturar contextos, tecnologias, civilizações, comportamentos, ambientes e tudo mais que combinações multidisciplinares habilitam imaginar é um prazeroso exercício de ideação, ainda mais quando ficamos cientes de que essa capacidade de transitar entre diversas áreas do conhecimento e da cultura elaborando cenários sem fim, é um dos elos comuns que nos une a todas as pessoas pelo mundo.  
A história de “Metamorfose por Completude”, uma Ficção Científica, foi escrita tendo sempre em mente a perspectiva de solo comum da humanidade: um único movimento criativo e sem fronteiras, e por isso mesmo de espantosa variedade e ritmos.
Com isso em mente, procurei elementos que pudessem nos fazer ver com mais clareza a necessidade e a urgência de adquirir perspectivas tão amplas quanto abrangentes.   E percebi nesse processo que uma sensibilização dos nossos sentidos e de nossos conceitos pode muito bem desvendar um panorama mais rico de possibilidades que talvez permaneçam unicamente como tal por falta de apreciação e de investigação.
            Desenvolvi então essa história intercalando perspectivas diversas da Física, da Arte, das Teorias da Complexidade e dos Estudos da Consciência, colocando na fala dos personagens um discurso declaradamente não-dualista e de livre-trânsito-entre-temas, discurso este que se desdobra e se estende ao longo da trama nas descrições das composições arquitetônicas dos ambientes das naves alienígenas e dos planetas visitados. E que almeja se estender e incluir o leitor instigando seu imaginário e evocando nele, por uma ressonância de qualidades, uma sensação-percepção-concepção da completude das relações existentes na tecitura infindável desse belíssimo planeta em que vivemos como uma só humanidade - veja também as referências que deram origem à história em:


Panorâmica

“Metamorfose por Completude” é a fascinante história de um primeiro contato da humanidade com alienígenas não-antropóides, que encontram a Terra devido a uma consonância que estabelecem com a condição peculiar na qual nosso planeta se encontra, denominada por eles de “limiar”, condição esta de abertura a inúmeras possibilidades sistêmicas e prenúncio de uma grande transformação.  
Enviando para a humanidade uma miríade de releituras-em-rede-complexa de toda a cultura humana - inúmeras discussões teóricas e soluções práticas para vários problemas enfrentados pela humanidade - os alienígenas propõem um intenso intercâmbio, mas somente se cumprida uma inusitada condição: toda a pobreza deve ser eliminada e todos os problemas ecológicos devem ser resolvidos, tudo num prazo de dois anos e com recursos próprios (da humanidade e do planeta).
A partir desse primeiro contato a história se desenrola em uma viagem a estranhos mundos e a ambientes extraterrestres exuberantes, proposta pelos alienígenas para alguns humanos, recheada de discussões acaloradas sobre a compreensão da relevância das dinâmicas coletivas, e sobre o imperativo que se faz à humanidade a aquisição de uma perspectiva mais abrangente da natureza, da consciência e da cultura.
Postura esta permanentemente adotada pelos alienígenas no decorrer da trama, cuja visão de mundo e perspectiva civilizatória amadurecida por eles ao longo de sua própria história se desdobrou na capacidade de estabelecer uma simbiose multifacetada com seu planeta natal e com suas naves, a ponto de poderem através dessa sintonia, acessar dimensões qualitativamente diferentes da do espaço-tempo comum.
Incitando o imaginário, exercitando um pensar-e-sentir-além-das-fronteiras, a envolvente e instigante história de “Metamorfose por Completude” chama a atenção para a possibilidade de existência de relações-de-conjunto mais abrangentes e profundas do que aquelas comumente consideradas e, do ponto de vista do autor, sutilmente espalhadas na exuberante rede multidimensional estabelecida pela cultura humana.



            O Autor

Carlos Antonio Ragazzo é Físico formado pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e um entusiasta da Divulgação Científica. Iniciou-se na Arte com o SenseiMassaoOkinaka da pintura Sumi-ê em 1993. A partir daí aventurou-se no acrílico sobre tela e atualmente dedica-se à Arte Gráfica. Passou a estudar e a praticar Meditação em1988 e segue dedicando-se ao tema e à pratica diária (Zazen) até hoje.
 Este livro é o resultado de sua tentativa de encontrar pontos comuns entre áreas da experiência humana distanciadas por uma visão fragmentada do mundo. A imagem que ilustra a capa desse livro também é de sua autoria e igualmente resultado dessa busca.


Boa leitura!

abraços

Rosita