A Cia Duo Encantado desde 2010, desenvolve trabalho artístico de narrativa oral e criação de repertórios a partir da pesquisa da tradição oral. Com um mote brincante, intrínseco ao sujeito da cultura popular que conta, canta e brinca. As histórias são um convite para cada um passear por suas imagens internas, se conhecer e se ver no outro. São como pontes que ligam a humanidade. Os temas são variados e expressam as riquezas culturais e os pontos de contato entre os diversos povos do mundo.
sábado, 1 de novembro de 2014
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
domingo, 10 de agosto de 2014
Cada ramo, cada folha
Timidamente, Vitor batia na porta de
Takane. O que ele buscava ali era muito simples: queria aprender a fazer
bonsais e sabia que Takane fazia isso. Pediria que ele lhe desse aulas,
perguntaria o valor e combinaria os horários.
Takane, lá do fundo do galpão,
interrompeu sua atividade e chegou mais perto de Vitor, cumprimentando-o com um
gesto de cabeça. Vitor expôs as suas ideias objetivamente. Takane escutou e lhe
disse “Me acompanhe”. Andaram pelo galpão em silêncio, observando as árvores. Depois,
Takane levou Vitor a um canto, onde havia mudas, e lhe disse que escolhesse uma
para iniciar o cultivo do seu primeiro bonsai. Vitor escolheu uma rosqueira e Takane
escolheu uma figueira.
– Essas duas árvores ficarão juntas
aqui nesta estante. Cada vez que você vier, trabalharemos no cultivo de bonsais
com elas – e Takane despediu-se com um gesto de cabeça.
Vitor entendeu que era o fim da
aula. Pensou que aquele encontro fora pouco objetivo. Voltou a dali dois dias; sobrou
meia hora no intervalo do almoço e ele resolveu passar no galpão, essa era a
verdade.
Ele entrou e foi até Takane, que lhe
sorriu e se dirigiu à estante, onde seus bonsais esperavam pacientes. Cada um
pegou a sua árvore e as levaram à bancada; Vitor observava Takane e tentava lhe
imitar. Pegaram vasos rasos, cortaram as raízes um pouco e plantaram as árvores
com as pontas dos dedos. Colocaram um pouco de água, bem pouco. Takane voltava
com a sua árvore para a estante e Vitor entendeu que deveria fazer o mesmo. Era
o fim da aula de novo.
Vitor voltou mais duas vezes, e era sempre
bem recebido. Parecia que Takane o estava esperando. Sempre que ele chegava,
Takane de imediato interrompia o que estava fazendo para trabalharem juntos nos
bonsais, como se ele estivesse completamente desocupado, mas na verdade Vitor
via que ele sempre estava fazendo alguma coisa, que interrompia para lhe dar
atenção. Pensou bastante se alguma vez em sua vida tinha recebido a visita
inesperada de um amigo em seu escritório. Seus amigos nunca o visitariam lá,
pois sabiam que ele jamais interromperia suas atividades para conversar com
quem quer que fosse. Seus amigos mais íntimos marcavam horário, ligavam antes
de ir, perguntavam se podiam entrar. Que coisa!
Vitor então decidiu que na próxima
visita ao galpão de Takane seria objetivo e perguntaria se poderiam combinar um
horário para as aulas. Ele fez isso; Takane sorriu e respondeu objetivamente
também:
–
Este é o meu trabalho. Você vem, se eu estiver aqui, trabalhamos juntos pelo
tempo necessário.
Vitor gostava da companhia de
Takane, tentou inclusive conversar com ele, como coisa que fazem os amigos. Por
uma ou duas vezes tentou iniciar um assunto do tipo “Você assistiu o jogo
ontem?” ou “Tem feito muito calor, não acha?” Mas Takane respondia sim ou não e
o assunto morria outra vez. Vitor às vezes falava algo sozinho, contava algo do
seu cotidiano, mas já não esperava mais a interlocução do amigo. Um dia, Takane
falou a Vitor:
–
Observe uma floresta. Tudo nela está crescendo e não há barulho o tempo todo,
somente sons esparsos, necessários.
Vitor passou, depois disso, a adotar
outra postura: quando um assunto lhe viesse à cabeça, ele refletiria se era
importante falar aquilo. Se não fosse algo absolutamente necessário para dividir,
ele simplesmente esperava a vontade de falar passar. Muitos encontros se
passaram em que ele notou que nenhuma palavra havia sido dita, mas os bonsais e
aquela relação de amizade continuavam, sem nenhuma dúvida, a crescer.
Vitor precisou muito, um dia, dizer
a Takane que queria pagar pelas aulas. Takane sorriu e respondeu:
–
Eu não dou aulas de cultivo de bonsais, não há nenhuma placa anunciando isso na
frente do galpão.
–
Mas você dá aulas para mim, Takane!
–
Não sou eu que ensino, é você que aprende. Quando você vem, trabalhamos juntos,
observando nossas árvores e tentando interagir com elas.
–
Mas eu me sinto grato.
–
Então isso muda tudo. Se você desejar fazer algo por mim, pode me ajudar na
exposição de bonsais. No último final de semana de cada mês, abro o galpão para
exposição e venda, das oito horas da manhã às oito horas da noite. Nesses dias,
eu preciso de ajuda; você será bem-vindo.
Vitor ficou estarrecido. Takane... que
jogada de mestre! Ele pediu que Vitor o pagasse, se quisesse, com sua moeda de
troca mais valiosa: seu tempo. Vitor perguntou-se se queria mesmo usar um final
de semana inteiro seu com essa atividade, e o quê, afinal, os bonsais estavam
representando em sua vida.
No último final de semana do mês, lá
estavam Vitor e Takane, abrindo o galpão e recebendo os visitantes. Vitor ficou
muito impressionado consigo mesmo ao responder várias perguntas das quais não
sabia que conhecia as respostas. Ao final do domingo, Vitor se sentia cansado,
de uma forma diferente da que costumava sentir ao final de um dia de trabalho
seu no escritório da agência de publicidade. Ele se sentia feliz por ter sido
útil, e nem sempre se sentia assim ao entregar uma campanha publicitária. Eram trabalhos
diferentes, como se pertencessem a mundos diferentes.
Um dia, sentados lado a lado na
bancada, cada um cultivando o seu bonsai, Vitor contou à Takane:
–
Acabo de saber que vou ser pai.
–
Como se sente?
–
Assustado.
Takane
disse, depois de alguns minutos:
–
Criar filhos não é muito diferente de cultivar bonsais. A árvore tem uma força
de crescimento própria, que você, como cultivador, tenta orientar, adubando as
aptidões e podando o que considera maus instintos. O desafio é estar presente e
atento, observar cada ramo e cada folha, saciar as necessidades na medida em que
apareçam, dando somente o suficiente, na hora certa.
Vitor nunca tinha ouvido Takane
falar uma frase tão longa. Ele sabia que o amigo tinha dois filhos, que
ajudavam também nos finais de semana da exposição. Aquele seu conselho de
experiência vivida acalmou o seu coração.
Vitor mudou-se de apartamento,
estava arrumando a vida para receber a filha que chegaria em alguns meses. Sua agora
esposa lhe sugeriu dar o novo endereço a Takane e lhe convidar para os visitar.
Vitor chateou-se consigo mesmo por não ter pensado nisso antes, mas quando deu
o endereço anotado para Takane, ressaltou que ele poderia vir quando quisesse.
Takane sorriu, guardou o papel no
bolso. Enquanto cultivavam seus bonsais, naquele mesmo dia, Takane fez uma
pergunta a Vitor:
–
Posso lhe pedir, bom amigo, que me ensine a fazer uma coisa?
Vitor arregalou os olhos assustado
com a pergunta, sem saber o que ele poderia saber fazer que o amigo quisesse
aprender. Takane completou sua pergunta:
–
Eu gostaria que me ensinasse a fazer caipirinha.
Vitor deu uma risada gostosa e
abraçou o amigo brevemente, para desconcerto total de Takane. Mas Vitor, bom
brasileiro, não podia perder a chance de imitar o amigo:
–
Não vou ensiná-lo. Vamos fazer juntos, você é que vai aprender.
Em um dia à noite, na mesma semana,
Takane bateria à porta do apartamento de Vitor, acenaria com a cabeça e
entraria. Vitor nem pestanejou em interromper o trabalho que fazia no
computador e ir com o amigo para a cozinha, fazer caipirinha.
Enquanto trabalhavam, Takane tentou
puxar um assunto: ele estudara, antes de vir, alguns nomes usados como sinônimo
de cachaça no Brasil. Eles se divertiam relembrando nomes como “água que
passarinho não bebe”, “marvada”, “branquinha” e outros, tão sugestivos quanto.
Feita a caipirinha, foram saboreá-la na varanda.
Depois que Takane foi embora, a
esposa de Vitor comentou que foi muito estranho vê-los na varanda, tomando
caipirinha em silêncio. Vitor pensou, com muita satisfação, que o silêncio não
o incomodava mais. Esse ritual da caipirinha se repetiria muitas outras vezes,
com grande satisfação para ambos.
No galpão de Takane, enquanto
cultivavam seus bonsais, Vitor perguntaria um dia ao amigo:
–
Quando meu bonsai poderá ser considerado pronto?
Takane riu:
–
Nunca, Vitor; bonsais são vivos, não estão prontos nunca. Não são como
caipirinha, que se aprende em um dia. Se você quer um novo desafio, podemos
começar a trabalhar em outra muda. Você vai ver como algo que parece igual pode
ser muito diferente.
A filha de Vitor nasceu, começou a
andar, começou a falar e foi para a escola. Nos finais de semana da exposição,
a filha e a esposa de Vitor o visitavam no galpão e conversavam um pouco com os
filhos e a esposa de Takane.
Numa viagem de trabalho, nessa
época, Vitor estava participando de dinâmicas de grupo com os colegas do
escritório. Na entrevista com a psicóloga, pleiteando subir de cargo, ela se
mostrou agradavelmente surpresa com o que chamou de hobby de Vitor. Vitor respondeu-lhe que era muito mais do que isso.
Custava muito caro, custava o seu tempo.
A amizade, já tão longa, via os
bonsais iniciais tomarem formas, e outras árvores se juntaram às primeiras,
invendíveis. Vitor contou a Takane que seria pai outra vez.
Takane de novo perguntou:
–
Como se sente?
E
Vitor respondeu:
–
Imensamente feliz. Posso cuidar de mais de um bonsai de cada vez.
sábado, 17 de maio de 2014
Festival Sul Americano de Cultura Árabe
TENDA DA PALAVRA
O mês todo de fevereiro foi de nos debruçar nos estudos dos contos, das lendas, da música e de outros aspectos da cultura árabe. Toda esta imersão foi com o objetivo de compor o repertório Tenda da Palavra, apresentado em ocasião do V Festival Sul Americano de Cultura Árabe o qual tivemos a grande satisfação em participar. Este ano foi bem especial porque houve uma parceria com o Centro Cultural São Paulo e vários eventos ligados ao festival, aconteceram neste espaço. Inclusive a contação de histórias que foi no Espaço de Leitura da Biblioteca Infantil.
Foram tardes esticadas ouvindo músicas árabes, lendo histórias, contos e sobre a cultura árabe. As reuniões foram, inclusive, gastronômicas. Fizemos estudos da língua, da música, das histórias e da geografia! E fomos pesquisar a maneira correta de dizer algumas palavras e frases que consideramos importantes para ilustras alguns aspectos das histórias ou até mesmo como forma de transmitir um pouco mais da cultura. Pesquisamos tecidos e adereços para compor um figurino que dialogasse com as histórias selecionadas e com a maneira como estávamos produzindo a apresentação. Ao final de cada ensaio, a gente sentia um cansaço bom e cheio de satisfação. Cada um de nós (Rosita, Giba e Marli) se envolveu tão profundamente com esse trabalho, que sentíamos até um certo frio na barriga em pensar que acabaria em trinta de março.
Nos estudos individuais, eu narrava as histórias e filmava, simultaneamente. Assim percebia os detalhes dos gestos, entonação de voz, expressão corporal, vícios de linguagem, uso de adereços, entre outras coisas. Giba se concentrava ouvindo músicas e melodias árabes e toques no djembe, além de estudar a manipulação do boneco Vovô Said. Sim, houve também manipulação de boneco. Giba criou um personagem libanês chamado Vovô Said que brincava com a plateia e apresentação algumas coisas da cultura árabe de uma maneira divertida e simpática. A Marli, por sua vez, pesquisava entre seus trabalhos e vivências as melodias e músicas árabes e trazia sempre uma novidade para a gente.
Devo confessar que as histórias da cultura árabe tem uma profundidade e densidade muito grandes e o tempo todo ficávamos testando maneiras de apresentar as histórias de uma maneira divertida e interativa, palatável para as crianças sem que, no entanto, perdessem sua complexidade. Os contos escolhidos foram da tradição oral árabe e alguns, eu selecionei de livros do Malba Tahan em que ele faz uma releitura dos contos. Opa! Houve uma exceção. Um dos contos foi autoral, e eu tive esse desafio maior que foi estudar um conto árabe escrito por Paulo Farah (diretor da Bibliaspa, estudioso da cultura árabe). Uma grande responsabilidade estava em minhas mãos. O conto de Paulo Farah (diretor da Bibliaspa), intitulado O contador de histórias faz um percurso pela cultura árabe, dando especial atenção para a força da oralidade e da amizade. Uma história muito sensível e bela. Foi um maravilhoso presente.
Ah! Tivemos também a interpretação em libras: adorei! As profissionais que nos acompanharam mandaram muito bem. Vocês podem comprovar com a foto abaixo.
No final das contas, nós todos gostamos muito do resultado!
Em todos os dias de apresentação nós tivemos a grata satisfação de receber amigos que vinham prestigiar.
Como transmitir para quem não foi, a intensidade de tudo o que foi a nossa temporada de contos árabes no Centro Cultural São Paulo? Não há como, porém acho que pelo meu relato e as fotos, deu pra ter o gostinho.
Festival Baixo Centro
FESTIVAL DE RUA DO BAIXO CENTRO
Gosto muito de pensar na rua como um lugar de encontro, de partilha, de brincadeira, de festa e que enseja a convivência social e cidadã.
Gosto de sair às ruas e ver seus artistas nos faróis e nas praças.
Gosto de ver a rua tomada de gente envolvida numa procissão, num cortejo, em uma festança boa de São João, num bloco de carnaval.
A rua é o lugar de todo mundo. Na rua tudo coexiste e tudo pode ser.
A rua é viva e dinâmica. Nela espreitam oportunidades, delírios, ousadias, democracias. A rua é um lugar democrático por excelência.
E como é bom quando conseguimos vislumbrar infinitas possibilidades e jeitos de estar e ser na rua! Só mudando o olhar para perceber riquezas deste lugar comum à todos e pouco explorado.
O Festival Baixo Centro é uma destas manifestações que acontecem na rua e profundamente democrática desde sua concepção, organização e tudo o mais.
Ano passado eu me inscrevi, mas não consegui ir porque tudo ficou embolado. Esse ano eu me organizei melhor para poder participar, um pouquinho que fosse dessa maravilha que é o Festival Baixo Centro. No mesmo dia, eu tive também outra apresentação, na Biblioteca de São Paulo em horários próximos. Quase pensei em desistir, de novo, entretanto eu mantive a fé em que tudo iria dar certo. E deu mais que certo!
Além de ter passados momentos incríveis fazendo arte na rua, ainda pude conhecer uma artista incrível - a Carolina Velasquez com seu Fabuloso.
Fui com Giba Santana e eu contei histórias, ele tocou, nós e público cantamos, brincamos e fomos personagens das histórias. Na rua tudo acontece de um jeito espontâneo.
Ah! Como foi bom. Ano que vem eu quero mais.
Deixo os meus agradecimentos para a rua!
Um grande abraço,
Rosita Flores
segunda-feira, 17 de março de 2014
Apresentação de Giba Pedrosa no Centro Cultural São Paulo
| Os Gibas (Santana e Pedrosa e eu) |
O contador de histórias Giba Pedrosa no V Festival Sul Americano de Cultura Árabe
| Giba Pedrosa - Contos Árabes CCSP |
Foi muito gostoso assistir sua apresentação neste último domingo. Giba Pedrosa é um grande mestre não só conta admiravelmente histórias de tudo quanto é tipo, como também usa as brincadeiras de palavras, piadas e adivinhas permitindo que o público interaja e participe de forma muito divertida.
| Giba Pedrosa, Joca e o Pato |
Fiquei muito grata e feliz por Giba me convidar ao final, gentilmente, para contar uma história de Nasrudin.
Como se diz: Quem foi, foi e quem não foi, perdeu. Para deixar quem não foi com água na boca e quem foi com uma lembrança viva eu os presenteio com algumas fotos (desculpem-me pela falta de qualidade das imagens) e duas histórias. Aproveitem!
Ah! E não deixem de ir nos próximos finais de semana de março ouvir histórias com a gente da Cia Duo Encantado.
| Rosita Flores contando Nasrudin |
Certa vez, Nasrudin foi à Corte usando um magnífico turbante. A intenção do Mullá era despertar o desejo do rei e vender-lhe o turbante. E de acordo com sua expectativa, o rei perguntou:
- Nasrudin, quando você pagou por esta maravilha?- Mil moedas de ouro, majestade.
O vizir percebeu a espeteza e cochichou ao rei: "ninguém, além de um idiota, pagaria tanto por um turbante". O rei, influenciado pelo comentário, disse a Nasrudin:
- Por que você pagou tanto? Nunca ouvi falar que alguém tivesse dado essa quantia por um turbante.
- Paguei essa fortuna porque sabia que em todo o mundo só um rei compraria esse tipo de coisa.
Sensibilizado pelo elogio, o rei decidiu comprar o turbante pelas mil moedas de ouro.
Pouco depois, ao se encontrar só com o vizir, Nasrudin lhe disse:
- Você pode conhecer o valor de um turbante, mas sou eu quem conhece as fraquezas dos reis.
| Rosita Flores contando Nasrudin |
O Alfaiate desatento contada por Giba Pedrosa
"Era uma vez, a menos de mil quilômetros daqui, um alfaiate viúvo que vivia com a filha pequena... Apesar de ser um ótimo artesão, era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas.
Assim, costumava sair à rua com a mesma roupa velha, todas esfarrapadas, que usava o dia inteiro dentro de casa.
Os comentários se espalhavam, e ninguém mais encomendava roupas para o alfaiate, que foi ficando pobre. Um dia, sua filha disse: "Pai, não temos quase nada para comer. O senhor precisa fazer alguma coisa, senão vamos morrer de fome".
O alfaiate foi até' o sótão da casa, onde fazia muito tempo guardava coisas que considerava sem utilidade. Ao remexer nas pilhas empoeiradas, descobriu que entre elas havia objetos de valor. Ele nem se lembrava mais quando os tinha posto ali, nem por quê. Juntou uma porção desses objetos num carrinho e foi vendê-los no mercado da cidade. Com o dinheiro que recebeu, comprou comidas deliciosas para ele e para sua filha.
No caminho de volta para casa ele viu, pendurado na porta de uma tenda, um tecido magnífico, como nunca tinha visto. Era inteiro bordado com fios de todas as cores do arco-íris, formando várias figuras distintas. Nele também havia padrões ornamentais com fios de ouro e prata entrelaçados que brilhavam à luz do sol. O alfaiate, maravilhado, resolveu comprar aquele tecido com o dinheiro que havia sobrado.
Assim que chegou em casa, esticou o tecido sobre a mesa, pensou um pouco, e depois cortou e costurou um belíssimo manto que quase arrastava no chão.Quando saiu à rua com aquele manto, as pessoas o rodearam e perguntaram:
- Onde foi que você comprou este manto? No Oriente, na ilha de Java?
- Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
- Então, nós também queremos um manto lindo como este.
E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa. Eram tantas pessoas, e tantos mantos eles fez, que acabou ficando rico.Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim. Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profissional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço do tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as costuras, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
- Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
- Então, nós também queremos um manto lindo como este.
E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa. Eram tantas pessoas, e tantos mantos eles fez, que acabou ficando rico.Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim. Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profissional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço do tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as costuras, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
Quando saiu com o casaco, as pessoas queriam saber:
- Onde foi que você comprou este casaco? Na Austrália, no pólo norte?
- Não, eu mesmo o fiz.
E foram tantas encomendas de casacos, que o alfaiate ficou rico outra vez.Mas continuava sendo aquele homem que não prestava atenção em algumas coisas. A qualquer tipo de comemoração - casamento, batizado, enterro, festa de aniversário -lá ia ele com o casaco. Passou-se muito, muito tempo. E o casaco ficou todo esburacado, cheio de manchas. Ninguém mais fazia encomendas. Ele ficou pobre
Ele ficou pobre. Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
Ele ficou pobre. Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
- Onde foi que você comprou este colete? No Afeganistão? Na Terra do Fogo?
- Não, eu mesmo o fiz.
- Não, eu mesmo o fiz.
E com tantas encomendas de coletes, o alfaiate ficou rico. Mas, não sei se já lhes contei, ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Não tirava o colete para nada, nem mesmo para tomar banho.
Passou-se muito, muito tempo. E o colete ficou em petição de miséria. Pobre mais uma vez, o alfaiate aproveitou o pequeno pedaço de tecido do colete que ainda estava perfeito e sabem o que ele fez? Uma gravata-borboleta. Mas não era uma gravata qualquer. Era tão linda e brilhava tanto, que todos queriam gravatas como aquela.
Depois de muito trabalhar, ele acabou ficando rico. E não deixava de ser aquela pessoa que Não P... A... em A ... Coisas. Nem para dormir ele tirava a gravata.
Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre mais uma vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre mais uma vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
(Não se preocupem, o conto já está chegando ao fim.)
O alfaiate ainda descobriu na gravata um pedacinho de tecido que podia servir para alguma coisa. E então fez um superutrabelíssimo botão, bem redondo, que costurou na sua roupa velha, no meio do peito. Ninguém notava os farrapos que ele vestia; o botão era tão brilhante e magnífico que todos queriam botões como aquele. E tantos ele fez, que ficou rico.
Mas continuava sendo aquela pessoa que N Prestava A em A C. Por muito, muito tempo. E ele foi pobre.
Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com todas as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
O que o alfaiate fez com aquele pedaço minúsculo que sobrou do magnífico tecido?"Mas continuava sendo aquela pessoa que N Prestava A em A C. Por muito, muito tempo. E ele foi pobre.
Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com todas as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
| Giba Pedrosa - Contos Árabes CCSP |
| Giba Santana e Joca na plateia |
| Tarde muito gostosa e cheia de aprendizados. Obrigada Giba Pedrosa! |
Um grande abraço em todos vocês. Espero vê-los no final de semana, no CCSP! Até lá!
Rosita Flores
quarta-feira, 12 de março de 2014
Uma lenda cigana sobre o arco íris
Em tempos remotos os ciganos foram perseguidos e massacrados em todo o mundo.
O seu desespero era grande, pois eles odiavam guerras, e em vez de armas preferiam transportar o seus violinos, dançar e cantar alegres canções. Era enorme o seu desejo de liberdade, por isso os ciganos eram nomades.
Cansada de fugir e chorar as perdas de parentes e amigos, uma bela cigana, grávida, ao ver o arco-íris, invocou-o, pedindo salvação para o seu povo. Fê-lo com toda a devoção e fervor, pensando no filho que carregava no ventre, e que, em breve, iria nascer no meio de toda aquela violência e miséria.
A mulher, ajoelhada e chorando copiosamente, esperava uma resposta do arco-íris, quando se apercebeu que as cores que ela fitava começavam a brilhar com mais intensidade, alternando-se rapidamente.
Limpou as lágrimas, pensando estar a imaginar fantasias; mas, mais serena, verificou que não era fantasia, as cores estavam mesmo a alternar-se, como se fossem pequenos sinos emitindo sons divinos.
Sentiu dentro de si uma enorme paz; segurou com as mãos o ventre que guardava o filho, e rogou ao arco-íris que acabasse com a situação do seu povo.
De súbito ouviu uma voz emanando das cores do arco-íris dizendo-lhe para ter calma, e garantindo-lhe que não perderia o filho que ela guardava no seu ventre como um tesouro. A voz acrescentou:
“Essa criança fará com que as minhas cores ganhem vida nas suas mãos e receberá, para si e todas as gerações vindouras, muitas moedas de ouro, pois vou lhe oferecer o pote encantado que trago comigo, assim como toda a sua magia.
Com o verde ele levará a esperança e a fartura; com o vermelho, a vida, o entusiasmo e o vigor; com o amarelo, a realeza e a riqueza; com o azul, a serenidade e a intuição; com o laranja, a energia, a vitalidade e a emotividade; com o violeta levará a transmutação e a perseverança; com o rosa o amor, a beleza, a moralidade e a música”.
A lenda cigana espalhou-se pelo mundo, levada pelo encanto das roupas coloridas desse povo, pela magia das suas danças, pela sua atração pelo ouro e pela crença de que existe um pote de ouro inesgotável para além do arco-íris.
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