quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A Cia Duo Encantado se despede de 2014 com muita gratidão

Mais um ano bom chega ao fim. Para nós da Cia Duo Encantado, o ano de 2014 foi de boas conquistas e de muito trabalho. Foi um ano de muitos sorrisos guardados na memória e de muitas alegrias e sonhos compartilhados. Foi um ano de boas histórias contadas, ouvidas e vividas. Um ano também de muitas dificuldades e de trabalho árduo. Porém, colhemos muitos bons frutos. Também fizemos parcerias muito gostosas que fortaleceram nossa caminhada e trouxeram frescor ao nosso trabalho. 2014 foi um ano de plantio com mais maturidade e sabedoria. 








Programa Domingo no Parque (Biblioteca de São Paulo, Parque da Juventude)




















Nestes quase cinco anos de Cia Duo Encantado nós temos trilhado nosso caminho com perseverança, fé e muito estudo. E, aos poucos vamos colhendo conquistas, e duas delas foram muito especiais neste ano: nosso primeiro lugar no Edital de Fomento e Estímulo à Leitura da Prefeitura de São Bernardo do Campo com os projetos Livro na Roda: Contar histórias com o livro e Assim Estava Escrito; e a contemplação no edital de Literatura do SESI de São Paulo, com o repertório Mais que um susto!



Contando histórias no Festival Sul Americano de Cultura Árabe - Centro Cultural São Paulo e Bibliaspa
Ao longo deste ano fizemos trabalhos bem marcantes e de muita entrega, estudo e rotinas de ensaios. Quero destacar nossa participação no Festival Sul Americano de Cultura Árabe, com histórias árabes da tradição oral. Foram dias e dias de muito estudo, ensaio e conseguimos criar trilhas musicais lindas que emolduraram as histórias que foram contadas nos finais de semana de março no Centro Cultural São Paulo. Foi demais! No mesmo festival ministramos também um curso de formação em contação de histórias na Biblioteca Municipal Nuno Santana. 

Participamos mais um ano do Recreio nas Ferias, pelo PROART que é sempre tão gostoso! Fizemos apresentações em CEUs, circo, bibliotecas, escolas e teatros. E tivemos uma grata alegria em estreitar laços e firmar parceria com a Biblioteca de São Paulo, no programa Domingo no Parque. Foram vários domingos junto a um público alegre, descontraído e animado que parava para ouvir histórias, brincar e cantar com a gente nos parques: Villa Lobos e da Juventude.




Ah! E quanta alegria e satisfação em ministrar a oficina Baú da Infância: a arte de contar e brincar com a tradição oral, no centro cultural mais charmoso de São Paulo - a Casa das Rosas. Foram dois meses de tanta troca, de tantas e boas histórias e de muitos aprendizados, cantorias e brincadeiras nas manhãs de sábado. 



Grupo da Oficina Baú da Infância, Casa das Rosas
Oficina de brincadeiras tradicionais para os professores da EMEF Dias Gomes



Contando histórias na Pastoral da Criança, Butantã (Dia das Crianças)

































E foi neste ano, de 2014, que elaboramos o nosso primeiro repertório de contação de histórias para bebês. Foi sensacional! E foi lá na Casa das Rosas que estreamos em setembro. Quanta alegria e gratidão!


Virando Bicho para bebês - Casa das Rosas
Contamos histórias na rua, na praça, no coreto... Ah! Participar do Festival Baixo Centro foi uma experiência incrível e conheci artistas maravilhosos. E o que dizer do Festival de Cultura Paulista, o Revelando São Paulo? Belezas na nossa travessia de artesãos da palavra.


Festival Baixo Centro - Minhocão (São Paulo)
Participar das lutas de resistência dos moradores da cidade de Caldas, em Minas Gerais no evento VaiSuldeMinas em apoio à preservação da Área de Proteção Ambiental da Pedra Branca no início de dezembro, foi de essencial importância para nós que acreditamos na força do trabalho artístico como algo libertador e de transformação de pessoas para um mundo melhor, mais generoso e mais bonito. 


Participação da Cia Duo Encantado no evento de resistência e luta para preservação da APA Pedra Branca em Caldas (sul de Minas Gerais)
Este ano está se despedindo da gente e nós nos despedimos dele com muita esperança, satisfação e com a certeza de estarmos no caminho que nos foi dado. 

No ano de 2014 a Cia Duo Encantado fez novas parcerias e consolidou outras. Amigos artistas se juntaram ao Duo e nossos projetos ficaram mais bonitos. Só temos a agradecer pelo carinho de cada um que "engrossou o caldo" com seus talentos, suas ideias, sua criatividade, sua vontade de estar junto. GRATIDÃO!! Gratidão também aos amigos que estão juntos na torcida, aos que vão nas apresentações, aos que vibram com nossas conquistas. Desejamos um Bom Natal e um 2015 com tudo de bom, belo e gostoso.
Que 2015 traga belas histórias pra todos nós.
Que em 2015 os laços construídos estejam ainda mais fortalecidos e que novas parcerias aconteçam. 



Contando histórias para a primeira infância no Colégio Torres

A Cia Duo Encantado, deseja a todos um Natal iluminado de alegria, perdão, esperanças e amor. E que em 2015, as boas histórias preencham nossos caminhos. 

Que em 2015 a gente se encontre pelas boas histórias.

Um grande e fraternal abraço. 

Rosita Flores e

domingo, 10 de agosto de 2014

Cada ramo, cada folha


Autoria de Giovanna Artigiani





            Timidamente, Vitor batia na porta de Takane. O que ele buscava ali era muito simples: queria aprender a fazer bonsais e sabia que Takane fazia isso. Pediria que ele lhe desse aulas, perguntaria o valor e combinaria os horários.
            Takane, lá do fundo do galpão, interrompeu sua atividade e chegou mais perto de Vitor, cumprimentando-o com um gesto de cabeça. Vitor expôs as suas ideias objetivamente. Takane escutou e lhe disse “Me acompanhe”. Andaram pelo galpão em silêncio, observando as árvores. Depois, Takane levou Vitor a um canto, onde havia mudas, e lhe disse que escolhesse uma para iniciar o cultivo do seu primeiro bonsai. Vitor escolheu uma rosqueira e Takane escolheu uma figueira.
            – Essas duas árvores ficarão juntas aqui nesta estante. Cada vez que você vier, trabalharemos no cultivo de bonsais com elas – e Takane despediu-se com um gesto de cabeça.
            Vitor entendeu que era o fim da aula. Pensou que aquele encontro fora pouco objetivo. Voltou a dali dois dias; sobrou meia hora no intervalo do almoço e ele resolveu passar no galpão, essa era a verdade.
            Ele entrou e foi até Takane, que lhe sorriu e se dirigiu à estante, onde seus bonsais esperavam pacientes. Cada um pegou a sua árvore e as levaram à bancada; Vitor observava Takane e tentava lhe imitar. Pegaram vasos rasos, cortaram as raízes um pouco e plantaram as árvores com as pontas dos dedos. Colocaram um pouco de água, bem pouco. Takane voltava com a sua árvore para a estante e Vitor entendeu que deveria fazer o mesmo. Era o fim da aula de novo.
            Vitor voltou mais duas vezes, e era sempre bem recebido. Parecia que Takane o estava esperando. Sempre que ele chegava, Takane de imediato interrompia o que estava fazendo para trabalharem juntos nos bonsais, como se ele estivesse completamente desocupado, mas na verdade Vitor via que ele sempre estava fazendo alguma coisa, que interrompia para lhe dar atenção. Pensou bastante se alguma vez em sua vida tinha recebido a visita inesperada de um amigo em seu escritório. Seus amigos nunca o visitariam lá, pois sabiam que ele jamais interromperia suas atividades para conversar com quem quer que fosse. Seus amigos mais íntimos marcavam horário, ligavam antes de ir, perguntavam se podiam entrar. Que coisa!
            Vitor então decidiu que na próxima visita ao galpão de Takane seria objetivo e perguntaria se poderiam combinar um horário para as aulas. Ele fez isso; Takane sorriu e respondeu objetivamente também:
– Este é o meu trabalho. Você vem, se eu estiver aqui, trabalhamos juntos pelo tempo necessário.
            Vitor gostava da companhia de Takane, tentou inclusive conversar com ele, como coisa que fazem os amigos. Por uma ou duas vezes tentou iniciar um assunto do tipo “Você assistiu o jogo ontem?” ou “Tem feito muito calor, não acha?” Mas Takane respondia sim ou não e o assunto morria outra vez. Vitor às vezes falava algo sozinho, contava algo do seu cotidiano, mas já não esperava mais a interlocução do amigo. Um dia, Takane falou a Vitor:
– Observe uma floresta. Tudo nela está crescendo e não há barulho o tempo todo, somente sons esparsos, necessários.
            Vitor passou, depois disso, a adotar outra postura: quando um assunto lhe viesse à cabeça, ele refletiria se era importante falar aquilo. Se não fosse algo absolutamente necessário para dividir, ele simplesmente esperava a vontade de falar passar. Muitos encontros se passaram em que ele notou que nenhuma palavra havia sido dita, mas os bonsais e aquela relação de amizade continuavam, sem nenhuma dúvida, a crescer.
            Vitor precisou muito, um dia, dizer a Takane que queria pagar pelas aulas. Takane sorriu e respondeu:
– Eu não dou aulas de cultivo de bonsais, não há nenhuma placa anunciando isso na frente do galpão.
– Mas você dá aulas para mim, Takane!
– Não sou eu que ensino, é você que aprende. Quando você vem, trabalhamos juntos, observando nossas árvores e tentando interagir com elas.
– Mas eu me sinto grato.
– Então isso muda tudo. Se você desejar fazer algo por mim, pode me ajudar na exposição de bonsais. No último final de semana de cada mês, abro o galpão para exposição e venda, das oito horas da manhã às oito horas da noite. Nesses dias, eu preciso de ajuda; você será bem-vindo.
            Vitor ficou estarrecido. Takane... que jogada de mestre! Ele pediu que Vitor o pagasse, se quisesse, com sua moeda de troca mais valiosa: seu tempo. Vitor perguntou-se se queria mesmo usar um final de semana inteiro seu com essa atividade, e o quê, afinal, os bonsais estavam representando em sua vida.
            No último final de semana do mês, lá estavam Vitor e Takane, abrindo o galpão e recebendo os visitantes. Vitor ficou muito impressionado consigo mesmo ao responder várias perguntas das quais não sabia que conhecia as respostas. Ao final do domingo, Vitor se sentia cansado, de uma forma diferente da que costumava sentir ao final de um dia de trabalho seu no escritório da agência de publicidade. Ele se sentia feliz por ter sido útil, e nem sempre se sentia assim ao entregar uma campanha publicitária. Eram trabalhos diferentes, como se pertencessem a mundos diferentes.
            Um dia, sentados lado a lado na bancada, cada um cultivando o seu bonsai, Vitor contou à Takane:
– Acabo de saber que vou ser pai.
– Como se sente?
– Assustado.
Takane disse, depois de alguns minutos:
– Criar filhos não é muito diferente de cultivar bonsais. A árvore tem uma força de crescimento própria, que você, como cultivador, tenta orientar, adubando as aptidões e podando o que considera maus instintos. O desafio é estar presente e atento, observar cada ramo e cada folha, saciar as necessidades na medida em que apareçam, dando somente o suficiente, na hora certa.
            Vitor nunca tinha ouvido Takane falar uma frase tão longa. Ele sabia que o amigo tinha dois filhos, que ajudavam também nos finais de semana da exposição. Aquele seu conselho de experiência vivida acalmou o seu coração.
            Vitor mudou-se de apartamento, estava arrumando a vida para receber a filha que chegaria em alguns meses. Sua agora esposa lhe sugeriu dar o novo endereço a Takane e lhe convidar para os visitar. Vitor chateou-se consigo mesmo por não ter pensado nisso antes, mas quando deu o endereço anotado para Takane, ressaltou que ele poderia vir quando quisesse.
            Takane sorriu, guardou o papel no bolso. Enquanto cultivavam seus bonsais, naquele mesmo dia, Takane fez uma pergunta a Vitor:
– Posso lhe pedir, bom amigo, que me ensine a fazer uma coisa?
            Vitor arregalou os olhos assustado com a pergunta, sem saber o que ele poderia saber fazer que o amigo quisesse aprender. Takane completou sua pergunta:
– Eu gostaria que me ensinasse a fazer caipirinha.
            Vitor deu uma risada gostosa e abraçou o amigo brevemente, para desconcerto total de Takane. Mas Vitor, bom brasileiro, não podia perder a chance de imitar o amigo:
– Não vou ensiná-lo. Vamos fazer juntos, você é que vai aprender.
            Em um dia à noite, na mesma semana, Takane bateria à porta do apartamento de Vitor, acenaria com a cabeça e entraria. Vitor nem pestanejou em interromper o trabalho que fazia no computador e ir com o amigo para a cozinha, fazer caipirinha.
            Enquanto trabalhavam, Takane tentou puxar um assunto: ele estudara, antes de vir, alguns nomes usados como sinônimo de cachaça no Brasil. Eles se divertiam relembrando nomes como “água que passarinho não bebe”, “marvada”, “branquinha” e outros, tão sugestivos quanto. Feita a caipirinha, foram saboreá-la na varanda.
            Depois que Takane foi embora, a esposa de Vitor comentou que foi muito estranho vê-los na varanda, tomando caipirinha em silêncio. Vitor pensou, com muita satisfação, que o silêncio não o incomodava mais. Esse ritual da caipirinha se repetiria muitas outras vezes, com grande satisfação para ambos.
            No galpão de Takane, enquanto cultivavam seus bonsais, Vitor perguntaria um dia ao amigo:
– Quando meu bonsai poderá ser considerado pronto?
            Takane riu:
– Nunca, Vitor; bonsais são vivos, não estão prontos nunca. Não são como caipirinha, que se aprende em um dia. Se você quer um novo desafio, podemos começar a trabalhar em outra muda. Você vai ver como algo que parece igual pode ser muito diferente.
            A filha de Vitor nasceu, começou a andar, começou a falar e foi para a escola. Nos finais de semana da exposição, a filha e a esposa de Vitor o visitavam no galpão e conversavam um pouco com os filhos e a esposa de Takane.
            Numa viagem de trabalho, nessa época, Vitor estava participando de dinâmicas de grupo com os colegas do escritório. Na entrevista com a psicóloga, pleiteando subir de cargo, ela se mostrou agradavelmente surpresa com o que chamou de hobby de Vitor. Vitor respondeu-lhe que era muito mais do que isso. Custava muito caro, custava o seu tempo.
            A amizade, já tão longa, via os bonsais iniciais tomarem formas, e outras árvores se juntaram às primeiras, invendíveis. Vitor contou a Takane que seria pai outra vez.
 Takane de novo perguntou:
– Como se sente?
E Vitor respondeu:

– Imensamente feliz. Posso cuidar de mais de um bonsai de cada vez.

sábado, 17 de maio de 2014

Festival Sul Americano de Cultura Árabe

TENDA DA PALAVRA

O mês todo de fevereiro foi de nos debruçar nos estudos dos contos, das lendas, da música e de outros aspectos da cultura árabe. Toda esta imersão foi com o objetivo de compor o repertório Tenda da Palavra, apresentado em ocasião do V Festival Sul Americano de Cultura Árabe o qual tivemos a grande satisfação em participar. Este ano foi bem especial porque houve uma parceria com o Centro Cultural São Paulo e vários eventos ligados ao festival, aconteceram neste espaço. Inclusive a contação de histórias que foi no Espaço de Leitura da Biblioteca Infantil.

Foram tardes esticadas ouvindo músicas árabes, lendo histórias, contos e sobre a cultura árabe. As  reuniões foram, inclusive, gastronômicas. Fizemos estudos da língua, da  música, das histórias e da geografia! E fomos pesquisar a maneira correta de dizer algumas palavras e frases que consideramos importantes para ilustras alguns aspectos das histórias ou até mesmo como forma de transmitir um pouco mais da cultura. Pesquisamos tecidos e adereços para compor um figurino que dialogasse com as histórias selecionadas e com a maneira como estávamos produzindo a apresentação. Ao final de cada ensaio, a gente sentia um cansaço bom e cheio de satisfação. Cada um de nós (Rosita, Giba e Marli) se envolveu tão profundamente com esse trabalho, que sentíamos até um certo frio na barriga em pensar que acabaria em trinta de março.

Nos estudos individuais, eu narrava as histórias e filmava, simultaneamente. Assim percebia os detalhes dos gestos, entonação de voz, expressão corporal, vícios de linguagem, uso de adereços, entre outras coisas. Giba se concentrava ouvindo músicas e melodias árabes e toques no djembe, além de estudar a manipulação do boneco Vovô Said. Sim, houve também manipulação de boneco. Giba criou um personagem libanês chamado Vovô Said que brincava com a plateia e apresentação algumas coisas da cultura árabe de uma maneira divertida e simpática. A Marli, por sua vez, pesquisava entre seus trabalhos e vivências as melodias e músicas árabes e trazia sempre uma novidade para a gente.

Devo confessar que as histórias da cultura árabe tem uma profundidade e densidade muito grandes e o tempo todo ficávamos testando maneiras de apresentar as histórias de uma maneira divertida e interativa, palatável para as crianças sem que, no entanto, perdessem sua complexidade. Os contos escolhidos foram da tradição oral árabe e alguns, eu selecionei de livros do Malba Tahan em que ele faz uma releitura dos contos. Opa! Houve uma exceção. Um dos contos foi autoral, e eu tive esse desafio maior que foi estudar um conto árabe escrito por Paulo Farah (diretor da Bibliaspa, estudioso da cultura árabe). Uma grande responsabilidade estava em minhas mãos. O conto de Paulo Farah (diretor da Bibliaspa), intitulado O contador de histórias faz um percurso pela cultura árabe, dando especial atenção para a força da oralidade e da amizade. Uma história muito sensível e bela. Foi um maravilhoso presente.

Ah! Tivemos também a interpretação em libras: adorei! As profissionais que nos acompanharam mandaram muito bem. Vocês podem comprovar com a foto abaixo.



No final das contas, nós todos gostamos muito do resultado!

Em todos os dias de apresentação nós tivemos a grata satisfação de receber amigos que vinham prestigiar.

Como transmitir para quem não foi, a intensidade de tudo o que foi a nossa temporada de contos árabes no Centro Cultural São Paulo? Não há como, porém acho que pelo meu relato e as fotos, deu pra ter o gostinho.





Festival Baixo Centro

FESTIVAL DE RUA DO BAIXO CENTRO






Gosto muito de pensar na rua como um lugar de encontro, de partilha, de brincadeira, de festa e que enseja a convivência social e cidadã.
Gosto de sair às ruas e ver seus artistas nos faróis e nas praças.
Gosto de ver a rua tomada de gente envolvida numa procissão, num cortejo, em uma festança boa de São João, num bloco de carnaval.
A rua é o lugar de todo mundo. Na rua tudo coexiste e tudo pode ser.
A rua é viva e dinâmica. Nela espreitam oportunidades, delírios, ousadias, democracias. A rua é um lugar democrático por excelência.
E como é bom quando conseguimos vislumbrar infinitas possibilidades e jeitos de estar e ser na rua! Só mudando o olhar para perceber riquezas deste lugar comum à todos e pouco explorado.
O Festival Baixo Centro é uma destas manifestações que acontecem na rua e profundamente democrática desde sua concepção, organização e tudo o mais.

Ano passado eu me inscrevi, mas não consegui ir porque tudo ficou embolado. Esse ano eu me organizei melhor para poder participar, um pouquinho que fosse dessa maravilha que é o Festival Baixo Centro. No mesmo dia, eu tive também outra apresentação, na Biblioteca de São Paulo em horários próximos. Quase pensei em desistir, de novo, entretanto eu mantive a fé em que tudo iria dar certo. E deu mais que certo!
Além de ter passados momentos incríveis fazendo arte na rua, ainda pude conhecer uma artista incrível - a Carolina Velasquez com seu Fabuloso.

Fui com Giba Santana e eu contei histórias, ele tocou, nós e público cantamos, brincamos e fomos personagens das histórias. Na rua tudo acontece de um jeito espontâneo.

Ah! Como foi bom. Ano que vem eu quero mais.

Deixo os meus agradecimentos para a rua!

Um grande abraço,

Rosita Flores

segunda-feira, 17 de março de 2014

Apresentação de Giba Pedrosa no Centro Cultural São Paulo

Os Gibas (Santana e Pedrosa e eu)
O contador de histórias Giba Pedrosa no V Festival Sul Americano de Cultura Árabe

O grande contador de histórias, Giba Pedrosa esteve presente no Centro Cultural de São Paulo nos dois primeiros finais de semana de março, integrando as atividades do Festival Sul America no Cultura Árabe (http://festivaldaculturaarabe.wordpress.com/) e contando muitas e divertidas histórias.


Giba Pedrosa - Contos Árabes CCSP
Foi muito gostoso assistir sua apresentação neste último domingo. Giba Pedrosa é um grande mestre não só conta admiravelmente histórias de tudo quanto é tipo, como também usa as brincadeiras de palavras, piadas e adivinhas permitindo que o público interaja e participe de forma muito divertida.

Giba Pedrosa, Joca e o Pato 
O domingo de contos árabes teve a presença forte dos contos de Nasrudin além de histórias com animais, sultão, princesas e até um alfaiate (O alfaiate desatento - in O violino cigano, histórias da tradição oral por Regina Machado, 2007) que na voz de Giba Pedrosa ganham um encanto sui generis

Fiquei muito grata e feliz por Giba me convidar ao final, gentilmente, para contar uma história de Nasrudin. 

Como se diz: Quem foi, foi e quem não foi, perdeu. Para deixar quem não foi com água na boca e quem foi com uma lembrança viva eu os presenteio com algumas fotos (desculpem-me pela falta de qualidade das imagens) e duas histórias. Aproveitem!

Ah! E não deixem de ir nos próximos finais de semana de março ouvir histórias com a gente da Cia Duo Encantado. 



Rosita Flores contando Nasrudin
A fraqueza dos reis

Certa vez, Nasrudin foi à Corte usando um magnífico turbante. A intenção do Mullá era despertar o desejo do rei e vender-lhe o turbante. E de acordo com sua expectativa, o rei perguntou:
- Nasrudin, quando você pagou por esta maravilha?

- Mil moedas de ouro, majestade.

O vizir percebeu a espeteza e cochichou ao rei: "ninguém, além de um idiota, pagaria tanto por um turbante". O rei, influenciado pelo comentário, disse a Nasrudin:
- Por que você pagou tanto? Nunca ouvi falar que alguém tivesse dado essa quantia por um turbante.

- Paguei essa fortuna porque sabia que em todo o mundo só um rei compraria esse tipo de coisa.

Sensibilizado pelo elogio, o rei decidiu comprar o turbante pelas mil moedas de ouro.
Pouco depois, ao se encontrar só com o vizir, Nasrudin lhe disse:

- Você pode conhecer o valor de um turbante, mas sou eu quem conhece as fraquezas dos reis.

Rosita Flores contando Nasrudin
O Alfaiate desatento contada por Giba Pedrosa

"Era uma vez, a menos de mil quilômetros daqui, um alfaiate viúvo que vivia com a filha pequena... Apesar de ser um ótimo artesão, era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas.
Assim, costumava sair à rua com a mesma roupa velha, todas esfarrapadas, que usava o dia in­teiro dentro de casa.
Os comentários se espalhavam, e ninguém mais encomendava roupas para o alfaiate, que foi ficando pobre. Um dia, sua filha disse: "Pai, não temos quase nada para comer. O senhor precisa fazer alguma coisa, senão vamos morrer de fome".
O alfaiate foi até' o sótão da casa, onde fazia muito tempo guardava coisas que considerava sem utilidade. Ao remexer nas pilhas empoeiradas, descobriu que entre elas havia objetos de valor. Ele nem se lembrava mais quando os tinha posto ali, nem por quê. Juntou uma porção desses objetos num carrinho e foi vendê-los no mercado da cidade. Com o dinheiro que recebeu, comprou comidas deliciosas para ele e para sua filha.
No caminho de volta para casa ele viu, pendurado na porta de uma tenda, um tecido magnífico, como nunca ti­nha visto. Era inteiro bordado com fios de todas as cores do arco-íris, formando várias figuras distintas. Nele também havia padrões ornamentais com fios de ouro e prata entrelaçados que brilhavam à luz do sol. O alfaiate, maravilhado, resolveu comprar aquele tecido com o dinheiro que havia sobrado.
Assim que chegou em casa, esticou o tecido sobre a mesa, pensou um pouco, e depois cortou e costurou um belíssimo manto que quase arrastava no chão.
Quando saiu à rua com aquele manto, as pessoas o rodearam e perguntaram:
- Onde foi que você comprou este manto? No Orien­te, na ilha de Java?
- Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
- Então, nós também queremos um manto lindo como este.
E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa. Eram tantas pessoas, e tantos mantos eles fez, que acabou ficando rico.Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim. Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profis­sional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço do tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as cos­turas, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
Quando saiu com o casaco, as pessoas queriam saber: 
- Onde foi que você comprou este casaco? Na Aus­trália, no pólo norte?
- Não, eu mesmo o fiz.
E foram tantas encomendas de casacos, que o alfaiate ficou rico outra vez.Mas continuava sendo aquele homem que não prestava atenção em algumas coisas. A qualquer tipo de comemo­ração - casamento, batizado, enterro, festa de aniversário -lá ia ele com o casaco. Passou-se muito, muito tempo. E o casaco ficou todo esburacado, cheio de manchas. Ninguém mais fazia en­comendas. Ele ficou pobre
Ele ficou pobre. Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
- Onde foi que você comprou este colete? No Afe­ganistão? Na Terra do Fogo?
- Não, eu mesmo o fiz.
E com tantas encomendas de coletes, o alfaiate ficou rico. Mas, não sei se já lhes contei, ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Não tirava o colete para nada, nem mesmo para tomar banho.
Passou-se muito, muito tempo. E o colete ficou em petição de miséria. Pobre mais uma vez, o alfaiate aproveitou o pequeno pedaço de tecido do colete que ainda estava per­feito e sabem o que ele fez? Uma gravata-borboleta. Mas não era uma gravata qualquer. Era tão linda e brilhava tanto, que todos queriam gravatas como aquela.
Depois de muito trabalhar, ele acabou ficando rico. E não deixava de ser aquela pessoa que Não P... A... em A ... Coisas. Nem para dormir ele tirava a gravata.
Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre mais uma vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
(Não se preocupem, o conto já está chegando ao fim.)
O alfaiate ainda descobriu na gravata um pedacinho de tecido que podia servir para alguma coisa. E então fez um superutrabelíssimo botão, bem redondo, que costurou na sua roupa velha, no meio do peito. Ninguém notava os farrapos que ele vestia; o botão era tão brilhante e magnífico que todos queriam botões como aquele. E tantos ele fez, que ficou rico.
Mas continuava sendo aquela pessoa que N  Prestava A em  A  C. Por muito, muito tempo. E ele foi pobre.
Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com to­das as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
O que o alfaiate fez com aquele pedaço minúsculo que sobrou do magnífico tecido?"

Giba Pedrosa - Contos Árabes CCSP



Giba Santana e Joca na plateia


Tarde muito gostosa e cheia de aprendizados. Obrigada Giba Pedrosa!




Um grande abraço em todos vocês. Espero vê-los no final de semana, no CCSP! Até lá!

Rosita Flores