terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O advento de Astrolábio e Claraboia

Queridos amigos que acompanham o Dedo de Prosa,

Hoje eu quero apresentar para vocês uma querida amiga minha que é muito talentosa com as palavras. Eu tenho o privilégio de ler, desde à época da faculdade, alguns de seus escritos. Quando nos formamos, a Giovana (é o nome desta minha amiga) se mudou para Florianópolis onde mora até hoje - já faz um bom tempo isso. A Giovana continuou derramando seus sentimentos, ideias e imaginação na ponta de uma caneta e foi ficando tão boa nisso que, atualmente, participa com sucesso de concursos literários. PARABÉNS, GI!

Quando a Gi veio aqui em casa visitar o Joaquim, eu recebi de presente o conto O advento de Astrolábio e Claraboia. Durante a leitura a emoção ficou à flor da pele. Sentimentos diversos afloraram. Lágrimas quiseram se esconder. A leitura foi deleite do começo ao fim.

Desejo que vocês tenham uma ótima leitura e assim como eu, também se deleitem.


Aproveito, a partir deste, para anunciar que o blog está aberto para receber outros contos, textos, ensaios para publicação.

Venha dar um Dedo de Prosa com a gente!

Grande Abraço e ótima leitura.


Conto selecionado no Concurso da Associação Nacional de Escritores
Para participação em antologia comemorativa dos 50 anos da ANE- Brasília (2012)

 “O advento de Astrolábio e Claraboia”

Giovanna Artigiani

            Ele tinha fama de esquisito. Sempre foi assim e já fazia muito tempo que o rótulo tinha deixado de incomodá-lo e tinha passado a lhe ser indiferente. Ele já tinha sido ponto de referência “tem um lugar vago ali ao lado daquele cara estranho”; ele já tinha sido tomado como exemplo de trivialidade “mas se até ele faz, você também vai conseguir”; ele já tinha tomado carão de policiais “vê se te ajeita melhor cara, você foi o primeiro que eu suspeitei”.
            Jonas era dono de um pensamento rápido e de um gosto duvidoso. Gostava mais de ouvir do que de falar. Preferia ficar só com as suas manias, sabia de antemão que suas escolhas não interessavam a ninguém. Só quem não o achava um caso perdido era a mãe, que pouco o via, mas o presenteava insistentemente com camisas pólo.
            Os dias, compridos, eram ocupados com pintura, música e solidão. Dedicava-se a pintar quadros minuciosos, abstratos, densos. Ele pintava seu turbulento universo interno. Havendo um dia de sol ele saía de sua toca e expunha as pinturas na rua, em frente a um parque e nem sempre gostava de ouvir os comentários dos observadores. Para evitar questionamentos colocava um pequeno papel abaixo de cada quadro com uma palavra nomeando o quadro como “mágoa”, “saudade”, “raiva”, “admiração”, coisas assim. No mesmo papel, em menor tamanho, o preço, que na verdade não queria dizer nada. Se outro valor fosse oferecido, ele daria de ombros e aceitaria. Alguns olhos maduros se demoravam na observação dos quadros, alguns olhos infantis se demoravam na observação de sua pessoa, alguns olhos o repreendiam na sua suposta vadiagem, muitos olhos sensatos o ignoravam. Respondia às crianças, apontando, que tinha vindo do céu, respondia aos beneméritos com um gesto de não.
            O pintor vivia em um velho porão, alugado por uma senhora de muitos anos que morava na casa de cima sozinha. O pequeno quintal era só dele e tinha aparência de pouco cuidado. O valor do aluguel não era reajustado há anos. Jonas e a senhora não se falavam há meses. Frequentemente, estando em sua casa por dias, ele se esquecia do mundo. Não obedecia às convenções das horas.
 Estando nas proximidades do parque dividia o espaço com outros vendedores alternativos. Para quem tem tempo e vontade de observar era fácil perceber que as pessoas se repetiam por ali. Havia certa previsibilidade no desfile urbano: muito cedo era o vento acordando tudo, depois vinham os apressados maiores e menores, na sequência viam os recém-aposentados, os esportistas obstinados, as mães e as crianças bem pequenas, os aposentados experientes, os cães cheiradores que ficavam ali, as crianças que voltam da escola, os apressados sem pressa completando a hora do almoço, as crianças um pouco maiores com suas mães, os jovens namoradores, os apressados de novo e os esportistas cansados. Vinha o vento de novo gelando tudo. Eventualmente vinham os exaustos limpadores das ruas e os policiais sisudos.
            O convívio era pacato entre os vendedores. Havia alguma conversa entre a maior parte deles, alguma camaradagem em cuidar dos produtos para pequenas ausências do outro, alguma partilha de alimento, nenhuma curiosidade sobre a vida alheia. Dividiam o espaço, o tempo e os cães. Sempre se juntam cães a esses movimentos.
            Como já foi dito, havia certa previsibilidade na presença dos cães. E a personalidade de um e outro, era demonstrada em diferentes situações. Para os cães a vida é uma constante busca do cheiro, da comida, do abrigo e da reprodução. Os humanos às vezes ajudam nas buscas caninas. O fato é que aqueles humanos e cães acostumaram-se a estar naquele palco como personagens principais, atravessados pelos passantes coadjuvantes.
            Jonas tinha por princípio não interferir no mundo, deixava que as coisas se resolvessem sozinhas e que os fatos tomassem rumo sem a sua participação. Não queria ser justo ou injusto, não queria ser causa ou consequência, não queria participar de nada, envolver-se ou comprometer-se. Suas pinturas eram uma fala à qual não cabia interlocução, como frases feitas. Mas o seu rápido pensamento, em desacordo com seus princípios e em franca desobediência ao seu volátil voto de silêncio, emitia incessantes julgamentos e observações, que reverberam e produziam novas pinturas, quase sempre.
            Um fato.
Certa vez, vinha descendo a rua um carro visivelmente desgovernado e em nítida rota de colisão com o alambrado do parque, bem no ponto em que dormia tranquilo, aproveitando os raios do sol, Astrolábio, o cão faminto. Contrário à sua índole Jonas gritou:
- Astrolábio!
            E o cão, como se soubesse que aquele nome era seu, alertou-se e correu junto à trupe, fugindo do perigo e juntando-se aos demais, taquicárdicos, a poucos metros do carro amassado.
            Recuperado do susto triplo – o carro desgovernado, a morte eminente do cão e a fala do companheiro até então tido como mudo – comentou, jocoso e ritmado, um vendedor da área:
- Mas é mesmo coisa que a gente se espanta. O cara nunca falou nada, e quando fala, não fala assim pão e pedra, diz logo o quê? Astrolábio!
O humano não nomeou para poder comunicar, mas para transmitir um pertencer afetuoso. Mesmo sem querer, aquele mundo era seu mundo, aquele cão era um pouco seu. Mesmo sem querer interferir, ele se importava.
Certamente os cães, se pudessem conversar entre si dariam nomes aos humanos como “o cheiro azedo” ou o “cheiro de capim”. Assim, de mesma forma, os humanos presentes na frente do parque costumavam denominar os cães como “a branquinha”, “o faminto” e outros. Eram nomes operacionais, de um lado e de outro. Não se ocupavam nesta parte do universo, com o uso de abstrações para fins práticos, apenas para fins inespecíficos.
            Naquele mesmo dia ele pintaria o quadro “proteção”.
            Certa vez uma mulher muito jovem descreveu assim os quadros de Jonas para um cego:
- São cores, cores que se movimentam mostrando um sentimento, elas se misturam em alguns pontos e em outros estão mais puras.
Batismo feito, batismo aceito. O cão passou a ser chamado de Astrolábio por todos e passou a se comportar como se pertencesse um pouco mais a Jonas. Passou a acompanhá-lo até em casa e nas noites de chuva, Jonas percebeu que ele dormia sob o tanque de lavar roupas. Sem maiores exigências ele passou a cuidar do portão sempre aberto. Economizava latidos como Jonas economizava palavras. Jonas pintou “silêncio” e “amizade”.
O pintor passou a dar ao cão restos de comida e recebia pequenas lambidas agradecidas. Jonas pintou “afago”.
Um dia, bem cedo, Astrolábio latiu para chamar o Jonas. Ele tinha a companhia de uma pequena cadelinha branco-suja de rabo retorcido. Claraboia podia ser seu nome. Esse é o curso natural da história, mesmo que ninguém interferisse no rumo das coisas.
Jonas desejou secretamente, pela primeira vez em sua vida, pintar “amor” nas costas nuas de uma mulher. 

6 comentários :

  1. Que lindeza isso..
    pintei um "sorriso" aqui..
    =)

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  2. Noooossa, que linda história. Me emocionou! Parabéns Gi e Rosa. Beijos

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  3. Grata querida De, que sempre me acompanha por aqui. Quem sabe você também não se anima e envia um texto seu para cá? beijão

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Olá pessoal desse espaço gostoso! É um enorme prazer compartilhar meus contos por aqui. Obrigada Denise e Hélio, emocionar é a meta ;) Obrigada Rosita, por mais essa parceria!

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